A estratégia dos grandes: crescimento acelerado leva Gafisa a prejuízo de R$ 1,1 bilhão

A estratégia dos grandes: crescimento acelerado leva Gafisa a prejuízo de R$ 1,1 bilhão

Diretor-presidente da Gafisa reconhece problemas com a compra da Tenda

Marina gazzoni, O Estado de S. Paulo,

03 de abril de 2012 | 18h10

 A incorporadora Gafisa divulgou ontem um prejuízo líquido de R$ 1,1 bilhão em 2011, reflexo principalmente de problemas com a construtora Tenda, adquirida em 2008. O resultado ultrapassa todos os lucros obtidos pela empresa desde 2005, que somam cerca de R$ 990 milhões. Segundo os executivos da Gafisa, os dados apresentados são preliminares e não foram auditados. O balanço definitivo será divulgado no dia 9.

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O prejuízo se deve a um ajuste nos custos da empresa de R$ 889 milhões, 69% deles referentes a projetos da Tenda e 31% da Gafisa. O que mais pesou na conta foi a revisão do orçamento das obras. A empresa precisou adicionar R$ 587 milhões no custo de construção dos empreendimentos, elevando em 8% o orçamento original. Metade desse montante veio de projetos feitos por parceiros, contratados para executar as obras dos empreendimentos da companhia.

Cuidado com o crescimento

“Nossa companhia se tornou significativamente mais complexa, cresceu mais depressa do que poderíamos controlar adequadamente. Fornecedores regionais e parceiros também estavam despreparados para atender nossa demanda”, disse ontem o diretor-presidente da Gafisa, Duilio Calciolari, em teleconferência. “Gostaria de dizer o quanto estou desapontado por não termos conseguido alcançar nossa meta de desempenho e nem entregar o ‘turn around’ das operações de Tenda no prazo adequado”, completou.

Além da revisão de custos de obras, a Gafisa também precisou realizar distratos de contratos de venda de imóveis da Tenda. A empresa analisou a carteira de clientes da Tenda e encontrou 4 mil pessoas que não se enquadram nas condições para contratar financiamento imobiliário. O impacto financeiro desse ajuste foi de R$ 91 milhões.

A praxe no mercado é que os clientes paguem prestações de imóvel adquirido na planta para a construtora durante a obra e, depois, entrem em um financiamento imobiliário. Mas muitos lançamentos da Tenda foram vendidos para clientes que não atendem aos requisitos exigidos pelos bancos para a contratação de crédito habitacional. A empresa, portanto, precisou retomar o imóvel desses clientes, reembolsar o que eles pagaram e colocar os imóveis à venda novamente.

A Gafisa reservou mais dinheiro para resolver problemas neste ano. A empresa fez uma provisão de R$ 80 milhões para novos distratos e mais R$ 87 milhões para devedores duvidosos. As multas por atrasos de obras e os cancelamentos de projetos também causaram custos extras.

O presidente da Gafisa afirmou que a companhia pretende recuperar a maior parte das perdas em 2012. A meta é gerar entre R$ 500 milhões e R$ 700 milhões de caixa neste ano. Segundo Calciolari, cerca de 40% das unidades da Tenda retomadas pela empresa de clientes com problemas de crédito já foram revendidas.

Reações

Os investidores receberam mal o resultado divulgado pela empresa. As ações da Gafisa caíram 4,19% ontem, enquanto o Ibovespa subiu 1,09%.

“O resultado é muito diferente do que tinha sido sinalizado pela companhia”, avalia o Barclays Capital. Em relatório, o banco destaca o “impressionante” ajuste, em valores muito piores que a estimativa mais pessimista do mercado. O analista Marcello Milman, do BTG Pactual, por sua vez, calcula que as perdas reconhecidas pela Gafisa representam até 63% do valor de mercado da companhia, derrubando-o para R$ 2,75 bilhões. “Dado o elevado grau de incerteza associada à recuperação da companhia, mantemos precaução com as ações da Gafisa”, diz.

Para o analista de construção civil da corretora Banif, Flávio Conde, a grande dúvida do mercado é se os ajustes na companhia já acabaram ou ainda aparecerão no resultado do primeiro trimestre de 2012. “Dada essa incerteza, é muito difícil estimar o valor justo da companhia”, diz.

Um analista, que não quis se identificar, disse que o mais preocupante foram os ajustes feitos em projetos da própria Gafisa. “Que a Tenda tinha problemas, todos sabiam. Mas não esperávamos ajustes nos projetos da Gafisa”, disse.

Outro fator recente que acionou o sinal de alerta no mercado financeiro foi a proposta de aquisição de fatias da companhia feita pelos seus ex-acionistas, os fundos GP Investimentos e Equity International, do americano Sam Zell, no início do ano. “Ninguém fez oferta para comprar a empresa inteira. Talvez ela valha menos do que o mercado estima”, disse. A proposta foi recusada

Reestruturação

Na metade de 2011, a Gafisa iniciou uma reestruturação. A empresa decidiu brecar os lançamentos da marca econômica, a Tenda, e priorizar os loteamentos de Alphaville, que traz margens maiores.

A empresa também quer focar em mercados mais maduros, principalmente no Rio e em São Paulo. A meta da Gafisa é lançar até R$ 3,3 bilhões em 2012, menos do que os R$ 3,5 bilhões que lançou em 2011. O grupo planeja entregar entre 22 mil e 26 mil unidades - sendo metade de empreendimentos da Tenda.

COLABOROU: BETH MOREIRA

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