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| 26 de agosto de 2015 | 6h 56

Segredo está em olhar o negócio com simplicidade

Daniel não é chef, não precisa entender de vinhos, mas sabe: dinheiro que entra tem que ser maior do que as saídas

Vivian Codogno, Estadão PME

“Você precisa de mais dinheiro do que tem hoje para viver? Então, não abra um restaurante porque isso aqui é uma loucura!” Com sotaque carregado, o argentino Daniel Miguel Garcia se diverte ao contar suas experiências “de aventureiro” com negócios ligados à gastronomia até a abertura, há 16 anos, do Bar e Restaurante Cacilda.

Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão
Empresário adquiriu muita experiência antes de abrir o negócio

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Longe do burburinho do centro de São Paulo e de outros bairros boêmios, o Cacilda, localizado na Vila Romana, foi protagonista do movimento de descentralização da vida noturna da capital, que começou na década de 1990. Com apenas 80 metros quadrados na inauguração, o restaurante de nome inspirado no Teatro Cacilda Becker, que fica na mesma rua, fatura em média R$ 600 mil por mês e chega a vender 400 refeições entre almoço e jantar.

A relação de Daniel com São Paulo começou aos 21 anos, quando ele trancou a faculdade de agronomia para viajar. “Todo argentino é seduzido pelo Brasil”, brinca. Na época, conseguiu seu primeiro trabalho em um bar que levava o sugestivo nome Lei Seca. Era 1977. De volta à Argentina em 1982, Daniel se deparou com a economia do país em frangalhos por consequência da Guerra das Malvinas. “Eu precisava me capitalizar para sair novamente. Não dava para ficar por lá, não havia perspectiva de trabalho”, relembra o empreendedor.

Em mais uma viagem a São Paulo, conseguiu emprego em outro bar, dessa vez em Ilhabela, litoral do Estado. Lá, absorveu lições que considera primordiais para empreendedores do segmento. “O bar era um sucesso de público, mas um fracasso como negócio. Trabalhávamos feito loucos, era uma bagunça generalizada, alguns funcionários bebiam mais do que os próprios clientes”, conta com um sorriso no rosto.

Outras experiências vieram até que a ideia de abrir o Cacilda começasse a se delinear. Inspirado pela movimentação que começava a tomar conta da Vila Olímpia, bairro hoje conhecido pela intensa vida noturna, Daniel decidiu arriscar. “Vi todos aqueles pontos pipocando em uma época em que os bares, até então concentrados em um circuito central, começaram a se fortalecer nos bairros.” Com capital limitado para investir, a esquina da Rua Tito pareceu um local atrativo aos olhos e principalmente ao bolso de Daniel e seu sócio na época. “Era o que podíamos pagar com o pouco que eu tinha e o pouco que ele (sócio) tinha. Encanei com esse lugar”, brinca.

A construção da identidade do Cacilda esteve desde o início ligada à figura do proprietário, que entende bem a noite da cidade. “Em um bar, você carrega a personificação do dono. O Cacilda era o bar do Daniel. Já o restaurante tem uma identidade mais independente”, discorre. “Estou ficando velho para ser dono de bar. Já não trago um público muito interessante”, brinca o empreendedor.

Aos 46 anos, ele se orgulha da clientela que criou. Aponta para uma mesa próxima da que recebe a reportagem e relembra um engano que tornou um consumidor fiel. “Há alguns anos, um garçom passou um zero a mais na conta daquele cliente. Ele não percebeu e pagou. Quando fomos nos desculpar e avisá-lo, ele disse que tudo bem, o valor que passamos a mais poderia ficar de crédito para visitas futuras. Viramos amigos, vi os filhos dele crescerem no meu restaurante”, orgulha-se Daniel Garcia.

Porém, nem sempre a relação com os fregueses é fácil para o argentino. O empresário sai do sério quando alguém fere uma das plantas dispostas no salão, das quais cuida todos os dias e, quando as percebe frágeis, leva para casa para prestar cuidados intensivos. “Até para ser cliente é preciso ter experiência”, diz.

Conhecimento. Já no fim da tarde, quando a luz do sol atravessa as grandes janelas de vidro do restaurante e as mesas começam a ficar vazias, Daniel reflete sobre o que o levou ao sucesso: “Não tenho a menor ideia de como os astros se movimentam. Não sei cozinhar, não sou chef, mas sou um ótimo crítico. Não preciso entender de bebidas, para isso existe o sommelier. Tenho que saber se o dinheiro que entra é maior que o dinheiro que sai”, recomenda o empreendedor.

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