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| 28 de janeiro de 2016 | 6h 48

Muito além de 'só' ficar milionário e chegar lá

Padaria fundada em 1897 desperta a atenção de eventuais sócios e até de administradoras de shoppings em São Paulo

Gisele Tamamar, Estadão PME

De vez em quando Alexandre Franciulli joga um pouco de farinha de trigo na calçada da padaria 14 de Julho, localizada no Bexiga, em São Paulo, e faz uma oração. Era um costume do pai, Wilson, quando ele comandava o negócio. “Faço a mesma coisa quando começo a pensar nele. Se deu certo com ele, tem que dar certo comigo”, afirma.

Clayton de Souza/Estadão
Clayton de Souza/Estadão
Alexandre Franciulli comanda a padaria 14 de Julho

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A padaria inaugurada em 1897 e hoje administrada por Alexandre busca misturar com eficiência a tradição da empresa centenária, criada pelo avô Rafaelli e famosa pelos seus pães italianos, com as inovações necessárias para que o empreendimento mantenha a competitividade. É dele, por exemplo, a receita da lasanha de pão italiano e da frolá, um pão recheado com vistosos dois metros de comprimento.

O sucesso do lanche de pernil assado no vinho também motivou a abertura de uma cantina para receber os clientes e as mesas apertadas na calçada foram transferidas para um espaço maior. “Sigo a tradição, mas também continuo criando. A gente vai se adequando ao gosto do brasileiro”, diz.

O fundador da 14 de Julho veio da Itália, precisamente de Santa Maria di Castellabatte. Mecânico de profissão, Rafaelli chegou ao Brasil com o propósito de abrir uma oficina, mas seus pães italianos ficaram famosos antes. “Todo mundo fazia pão e presunto cru porque tinha que desenvolver um produto que durasse mais que o pão tradicional”, conta Alexandre.

Primeiro, ele construiu um grande forno para a família, mas os pedidos dos vizinhos aumentaram e ele enxergou a oportunidade de abrir a padaria. Tudo ia bem até que o filho Wilson sofreu um acidente com a queda da barraca usada para vender pães na feira e precisou amputar o braço. “Meu avô ficou muito desgostoso com o fato e vendeu a padaria”, lembra Alexandre.

O negócio passou pela mãos de conhecidos e parentes até Wilson readquirir o empreendimento, vendido novamente até ser recomprado por Alexandre há 21 anos. “A padaria está há uns 70 anos, no total, na família Franciulli”, diz.

O chef é formado em direito, mas cursou a faculdade para respeitar o tio Domingos Franciulli Neto, que exigia que os homens da família estudassem o curso. “Eu chegava às 5h na padaria, ficava até as 16h e ia para a faculdade. Minha rotina era a padaria, sempre trabalhando com comida”, lembra.

A recompra ocorreu quando Alexandre casou e decidiu que teria o controle do negócio novamente. “Coloquei todas as receitas que aprendi na infância inteira e comecei a fazer na padaria”, diz. Mas não foram só elas que ficaram em sua memória, o empresário lembra que o pai costumava fechar a padaria aos domingos para almoçar no local. “As músicas italianas eu sei cantar até hoje de tanto que eu as ouvia.”

O trabalho rendeu seus frutos e a padaria, como negócio, desperta o interesse de muita gente entusiasmada em abrir uma filial ou fazer algum tipo de sociedade com Alexandre. O contato é diário e ele até já recebeu visita de administradoras de shoppings interessadas em replicar o negócio.

Mas nenhum dos interessados motivou o chef a começar uma expansão. “Tem que ser uma pessoa com conhecimento dos produtos, que saiba vender. Em geral, entra uma pessoa que tem dinheiro e pergunta quanto vai ganhar. Eu respondo: ‘Depende se você vai ganhar’”, destaca o empreendedor.

Para Alexandre, o pequeno negócio exige muitos sacrifícios. “Se não tiver a dedicação do dono, da família, o negócio não dura muito. Não é uma coisa que você vai abrir e só colocar o nome”, conta o chef, que fez sua primeira viagem de férias – em um período de seis anos – neste mês de janeiro.

Alexandre conta com a ajuda na mulher Flavia no negócio e as irmãs também estão no ramo das padarias. Elas cuidam da administração da Italianinha, também localizada na mesma região da empresa do irmão. Sempre que possível, a família tenta manter a tradição do avô de almoçar todos juntos no domingo. As irmãs fecham a padaria e levam a mãe para a 14 de Julho, onde tudo começou. “Consideramos muito o lado da família. Ter um monte de padaria, ser milionário. Esse não é o nosso conceito de vida”, afirma o empreendedor.

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