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| 28 de janeiro de 2015 | 18h 59

Aos 90 anos de idade, Tecelagem Parahyba se ajusta para sobreviver

Marca que ficou famosa pela linha de cobertores e um jingle que atravessa gerações hoje enxuga receitas para se manter

Renato Jakitas, O Estado de S.Paulo

Em 1925, quando um grupo de portugueses deu início a fábrica de cobertores Parahyba na cidade São José dos Campos (SP), ainda não se falava em aquecimento global, a China era um país obscuro perto da União Soviética e os edredons não tinham caído no gosto do consumidor.

JF Diorio/Estadão
JF Diorio/Estadão
Kobbach assumiu a tradicional empresa nos anos 2000 e hoje vende cerca de 400 mil peças por ano

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Está certo que o mercado local era então um arremedo do que viria a se tornar em seguida. E apenas isso justifica a decisão intempestiva dos sócios imigrantes de abandonarem a tecelagem nas mãos do gerente e regressarem para a Europa sem nunca mais mandarem notícia.

Esse gerente era Olívio Gomes, pai de Severo Gomes, pareceiro político de Ulysses Guimarães, ex-senador e ministro nos tempos do governo militar.

A família Gomes assumiu o negócio e levou a Parahyba para a liderança da categoria, exportando para o mundo e colocando a marca no imaginário do brasileiro com a mítica propaganda que na década de 1950 anunciava que “já é hora de dormir, não espere a mamãe mandar, bom sorriso pra você e um alegre despertar”.

Bom, o tempo passou e, como se sabe, começamos a falar, e a sentir, o aquecimento global. A China também conquistou o mercado e os edredons ficaram famosos. Mas isso tudo é encarado como questões adicionais a uma série de problemas que assolaram a companhia. Começando com a hiperinflação, que na década de 1980 consumiu sua capacidade financeira, e finalizando com a morte trágica de Severo Gomes, que estava com Ulysses Guimarães no helicóptero que caiu no mar de Ubatuba vindo de Angra dos Reis.

“Pensamos que seria o fim de tudo. A empresa já tinha decretado concordata na década de 1980 e, dez anos depois, fizemos o mesmo”, lembra Ricardo Kobbach, um antigo funcionário que assumiu o controle da marca nos anos 2000 e implementou uma política de cortes de gastos, reduzindo ao máximo o tamanho da empresa para conseguir sobreviver.

Para isso, a antiga fábrica, um conjunto de galpões com 110 mil metros quadrados tombados pelo patrimônio histórico em São José, foi entregue para a prefeitura, em um acordo judicial para saldar dívidas com o erário. Sobraram dois mil metros quadrados da construção, onde 80 funcionários tocam hoje uma cooperativa criada para também amortizar as pendências trabalhistas da empresa.

“Eu adquiri a marca e hoje compro da China 65% dos produtos, como mantas, travesseiros e edredons. A cooperativa responde pelos demais 35%”, conta Kobbach, que vende 400 mil peças por ano e ainda tem nos cobertores o carro-chefe.

“As proporções caíram demais. No tempo de ouro, nas décadas de 1950, 60 e 70, a gente fabricava, só de cobertores, 2 milhões de unidades. Eu lembro que na Sears e na Macy’s dos Estados Unidos, 60% do portfólio de cobertores era nosso. Quer dizer: 60% do que estava exposto lá no ponto de venda dessas lojas era fabricado em nossa fábrica do Vale do Paraíba”, lembra o empresário, que começou a trabalhar no departamento de vendas da Parahyba na década de 1960, quando a companhia contava com 4,5 mil funcionários. “Tinha até um mercado aqui para os trabalhadores”, conta.

Atualmente, o empreendedor procura ampliar receitas participando de concorrência para fornecer material para hospitais e também prefeituras. “Nosso maior bem é a marca. Todo mundo lembra da gente e isso não tem preço”, finaliza Kobbach. .

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