Você se lembra de um carro chamado Brasília?

Daniel Fernandes

17 de junho de 2015 | 07h07

Leo Spigariol, da De Cabrón, escreve toda quarta-feira no Blog do Empreendedor
Se há algo que nunca deixo de fazer é aquela pausa rápida, mesmo que seja apenas mentalmente, no decorrer da overdose de informação e demandas que possuo em meu dia. Facebook, e-mail, celular, SMS, WhatsApp… nunca deixe essas ferramentas tomarem conta do todo o seu dia. Basta estar disponível que sempre há alguém te contatando por esses meios e te causando uma fragmentação cerebral.
Ontem, quando fazia minha parada para escrever este post, fiquei ilhado dessa overdose de acessibilidade e mergulhei nas notícias do dia. Deparei-me com a morte do lendário empresário Olacyr de Moraes, que, nos meus tempos de infância, mercou meu imaginário (ou era verdade?) como o cara mais rico do Brasil. Olacyr era uma figura mítica. Mas o que me chamou a atenção foi o link para o acervo do jornal Estadão, que acabou por me transportar até a uma cápsula do tempo, mais precisamente no dia 04 de abril de 1982. Eu era bem garoto e pouco lembrava de detalhes desse período. Assim, resolvi “folhear” o Estadão daquela época, conhecido à época como O ESTADO DE S. PAULO. Veja aqui.
Foi uma viagem no tempo e a um tempo muito curioso. Deparei-me com diversas matérias e anúncios interessantes, como, por exemplo, a ESPM anunciando o I Encontro de Marketing Financeiro no Brasil. Fico imaginando se você, que faz tudo no Excel, tivesse instantaneamente se transportado para esse evento de Marketing Financeiro em 82 num piscar de olhos. Conseguiria acompanhar a linha de raciocínio e ter a mesma agilidade na composição de custos de forma “oldschool”? Eu, com certeza, teria pedido pra sair.
Outra notícia que chamou muita a atenção foi uma matéria da página 50, com o título “VW garante peças para carro Brasília”. Para você, que nasceu depois de 2000 e que por acaso está lendo essa coluna, sim, nós já tivemos um carro com o nome de Brasília. E minha avó Augusta tinha uma azul. Eu sempre queria andar deitado em cima da tampa traseira, logo acima do motor. Essas são peculiaridades que você jamais deixaria seu filho fazer nos dias de hoje, porém, na infância, fez aos montes.
Mas, voltando à notícia, é um fato curioso uma empresa como a VW – e naquela época uma das únicas montadoras no Brasil – ir à público e ter que garantir o fornecimento do carro para seus consumidores. Hoje, enquanto consumidores, somos muito mais exigentes e estamos protegidos pelo código de defesa do consumidor. Hoje, as empresas estão muito mais preparadas para atuar no mercado. Imagine você ficar sem sua conexão de internet? Certeza que em 5 minutos você já liga no SAC da empresa para tentar resolver (ok! a tendência é você se impacientar com os milhões de protocolos e a burocracia noa atendimento, mas hoje temos a que recorrer).
Outra notícia que me chamou atenção e me fez lembrar um fato curioso: “Castello um pouco mais longa”. Naquele tempo, os postos de gasolina não abriam aos domingos. Pasmem! Lembro também que era costume, quando viajava aos domingos, levar um galão com gasolina no porta-malas. Hoje as pessoas perdem o controle por coisas banais.
Talvez todo o aparato do código do consumidor seja o reflexo da falta de confiança. Não confiamos no sujeito, logo, o sujeito é o inimigo. Em 1982, do que me recordo daqueles tempos, a caderneta de fiado na quitanda ou na venda do seu Joaquim ainda era uma prática das mais comuns. E, claro, quitar a famosa caderneta ao fim do mês era tão comum quanto. Aos poucos, alguns acordos que eram implícitos, passaram a ser deixados de lado. Talvez, em 1982, já estivéssemos num iminente processo de “assine embaixo e reconheça firma”. Daí a necessidade de a VW garantir peças para algo que ela mesma fabricou. É, outros tempos.

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