Você pode funcionar como marca de você mesmo

Você pode funcionar como marca de você mesmo

Permitir que o sobrenome corporativo entre no automático, assumindo a identidade do profissional, inibe que ele assuma a própria relevância; assim, ele vive apenas de ser o ex das empresas por onde passou

Ana Vecchi

04 de junho de 2020 | 13h43

Semana passada divulguei aqui uma das lives de que participei no Instagram, com o tema “o desapego do sobrenome corporativo“. No dia seguinte, falei em como construir o seu brand independentemente da marca em que você está. A repercussão que essas duas lives tiveram retratam muito a atual realidade do mercado brasileiro, com tantos executivos saindo das empresas em que trabalham ou planejando empreender e ainda têm dúvidas, resistências, questionamentos sobre que caminho adotar.

Na live com o Marinho Ponci (nesta quinta, 4, tem de novo, às 19h30; leia mais abaixo), que tornou-se meu amigo e é um exemplo de empreendedor nato, criativo, disruptivo e todas as melhores características que a gente possa querer de alguém que nos ajude a construir uma marca, perguntei por que ele carregava ou aceitava que indicassem o cargo de ex-diretor da Chilli Beans até hoje, se ele é um monstro de criatividade e criação de outros negócios.

E o papo rolou solto sobre a tendência das pessoas carregarem consigo as marcas das empresas em que trabalham e com ele não foi diferente, uma vez que ele foi da Chilli Beans por 15 anos, até que resolveu seguir outro caminho. E o mercado de franchising passou a denominá-lo como o Marinho ex-Chilli Beans.

Parece natural, mas você não pode cair nesta armadilha até que outro sobrenome lhe seja oferecido. Você deixa de ser ex-marca X e passa a ser atual marca Y. Mas e quando não houver nenhuma marca, você estiver em transição de carreira, pensando em empreender ou comprar uma franquia, você não existe? Vira um buraco negro, um vazio, se sente só e sem rumo?

Quanta gente já conheci, vi e, para muitos, tive a oportunidade de dar mentoria, resgatar o sobrenome da certidão de nascimento e a pessoa que constrói as marcas onde atua. Não sou psicóloga nem estou falando de marketing, publicidade ou propaganda. Falo de cada um que trabalha em uma empresa, em qualquer área e dá tudo o que tem para que a marca se posicione no mercado, atenda aos desejos de consumidores, gere empregos em toda a cadeia e dê lucro.

O recursos humanos, a área administrativa financeira, o comercial, o trainee e a aprendiz, o CEO, a COO, a CFO, gerente, todo mundo! E quanto maior o cargo, mais tempo de empresa, mais reconhecida a marca, parece ser mais difícil o desapego do sobrenome corporativo.

Sem falar de quem teve um único emprego em marca referência de mercado, foi demitido, nunca mais esteve em outra considerasse “A” marca, que sinta verdadeiro orgulho e passa a vida falando de quando trabalhou em Natura, Google, O Boticário, por exemplo, apenas citando estas para ilustrar. Tenho alguns (bem poucos) casos na família.

Os gatilhos para que as pessoas carreguem os sobrenomes corporativos como status, a “segurança” do emprego, a valorização do “eu” – sou digno/a de estar lá, me aceitaram, sou bom demais (tem 2 palavras bem mais fortes e objetivas que não devo usar aqui, sabe né?), significam estar vinculado a uma marca por não acreditar na força de seu próprio nome, da sua personalidade e competência.

Loja da Natura em São Paulo. Foto: Diogo Yanata

Outro exemplo: nos anos 1990, no boom do franchising aqui no Brasil, por conta de crise, milhares de demitidos compraram franquias para garantir a aposentadoria deles ou porque acreditavam que aos 40 anos eram velhos e não conseguiriam se recolocar. Essa era a real, na época.

Ouvi vários novos franqueados do McDonald’s, que investiam algo em torno de R$ 500 mil a R$ 800 mil, dizendo-se gratos por terem sido aceitos, aprovados como franqueados! A seleção era ferrada mesmo, não bastava ter capital, mas investir este dinheiro todo e se sentir agraciado com a aprovação? Era como se a companhia tivesse feito o favor de admiti-los na rede! O que estava implícito: “Deixei de ser marca x e me aceitaram no McDonald’s (marca y)”.

E não é isso! Eles eram super importantes para que a marca se fortalecesse e se mantivesse em solo brasileiro. E os que não foram aprovados não seriam felizes naquela franquia, pois seus perfis serviriam como luvas em outros negócios, propósitos e por consequência, outras marcas franqueadas! Ou seja, o oposto de terem sido reprovados.

Não estou propondo rasgar CV e abandonar o histórico profissional, mas usar a favor para o presente. Na infância ou na adolescência já podemos perceber quem nasceu para empreender, para liderar e quem nasceu para construir com e para “os outros”, falando de forma bem genérica. Cada um tem seu lugar ao Sol. Ou é o próprio Sol, é uma estrela. Não existe céu sem constelações e elas são formadas por toda sorte de estrelas.

Então, você é a sua marca! E pode representar a marca em que trabalha, com orgulho, sendo empreendedor/a interno, realizando com excelência as suas atribuições, colaborando com sugestões e propostas de mudanças, trazendo os resultados considerados ideias, imprimindo a sua personalidade e seus valores por onde quer que passe! Ponto.

Pode também empreender comprando franquia, entrando em sociedade, criando uma startup, inventando um novo negócio, obtendo sucesso ou não. Importante pensar na possibilidade de quebrar, em função de todos os riscos inerentes à criação de uma empresa. E se acontecer, levante e siga em frente aprendendo com os erros que cometeu. Assuma as suas culpas e não culpe os outros, porque você os escolheu.

Não é bom permitir que o sobrenome corporativo entre no automático, pois vai inibir que você se assuma como profissional de relevância que é. E, se você conhece quem vive ou está vivendo assim, não tem intimidade, nem se sente confortável para trazer esta reflexão, compartilhe este texto.

O Marinho e eu recebemos muitos feedbacks do quanto requer coragem renunciar ao sobrenome corporativo. A pandemia do novo coronavírus está forçando pessoas fantásticas – e todas são! – a repensarem suas vidas e isso requer mais coragem ainda em momento de muitas incertezas e medo.

Renunciar, repensar, redefinir significam, hoje, construir. Antes de qualquer marca, somos a marca de nós mesmos e, se tivermos a certeza de nossa importância em processos colaborativos e construtivos, os que estiverem à nossa volta terão a mesma certeza. Vamos atrair estrelas tão brilhantes como nós e os caminhos surgirão. Basta estarmos abertos para eles. A star is born!

PS: Nesta quinta-feira, 4, às 19h30, estarei novamente em live com Marinho Ponci na conta dele no Instagram. Confiram!

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* Ana Vecchi é consultora de empresas, CEO na Ana Vecchi Business Consulting, professora universitária e de MBAs, pós-graduada em marketing e com MBA em varejo e franquias. Atua no franchising há 28 anos em inteligência na criação e na expansão de negócios em rede.

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