Você corre como uma garota? Ser menina, garota ou mulher não é ser menos

Daniel Fernandes

12 de dezembro de 2014 | 06h27

Marcelo Nakagawa é professor de empreendedorismo do Insper
Escrevo este texto enquanto converso com minha filha Helen, de 5 anos. Ela está entretida com seu kit de eletricidade e magnetismo.
Ainda me lembro do dia em que comprei o kit no Exploratorium, uma espécie de museu de ciências que fica em San Francisco, Estados Unidos. O local é incrível pois  você vivencia diversas experiências científicas. E a loja, um parque de diversões à parte. Devo ter ficado quase três horas olhando cada livro, brinquedo ou objeto à venda. Para não levar mais do que caberia nas malas, comecei a escolher presentes para a minha filha por área do conhecimento como biologia, história, física, matemática… Alguns podem achar que é muito para uma criança de tão pouca idade, mas ela não só entendeu como adora o livro do Sir Cumference e a primeira mesa redonda, por exemplo. Na estória, Sir Cumference é casado com a Lady Di Ameter e tem um filho chamado Raio.
Mas o item mais difícil foi o de física. Já tinha escolhido o famoso kit Roominate, criado por duas engenheiras de Stanford no qual as meninas poderiam brincar de casinha e ao mesmo tempo aprender mais sobre eletricidade, já que poderiam instalar uma luz que acendia ou um ventiladorzinho nos cômodos da casa de boneca. Mas havia outro kit, da Thames & Kosmos, que trazia vários itens de eletricidade e magnetismo. Só não vinha com a casinha de boneca. A Roominate era pefeito para as garotas, mas algo me incomodava.
Só descobri o que me incomodava hoje de manhã, quase um ano depois. Ao assistir um dos comerciais mais viralizados de 2014, me deparo com a questão: O que significa fazer algo como uma garota?
No comercial, há uma gravação de vídeo em que a diretora diz a uma moça que irá pedir para fazer algumas coisas. “Faça a primeira coisa que vier a sua mente”- complementa.
Mostre como é correr como uma garota” – pede. A moça corre toda desleixada. A segunda moça corre da mesma forma ainda fica preocupada como está seu cabelo. E a terceira moça também corre toda desengonçada. O menino repete exatamente o que as moças fizeram, assim como o rapaz que vem em seguida.
Mostre como lutar como uma garota” – pede a diretora. E o rapaz dá risada e depois começa a se debater soltando gritinhos. Uma das moças anteriores também representa de um jeito semelhante.
O novo pedido é “Agora arremesse uma bola (de beisebol) como uma garota”. E uma nova moça representa o movimento de forma totalmente descomprometida. A segunda moça representa algo mais desleixado ainda. O menino “deixa a bola cair no chão” e solta um gritinho.
Em seguida, o comercial mostra os mesmos pedidos feitos para as meninas de seis, oito, dez anos. E as meninas saem correndo com seriedade. Jogam a bola com força. E lutam com vontade. A diretora pergunta para uma menina o que significa correr como uma garota. E ela responde: “Significa correr o mais rápida que puder”.
Em um momento que se discute tanto o protagonismo feminino, as oportunidades para as mulheres são as mesmas de qualquer outra pessoa na visão dessas meninas. Ser menina, garota ou mulher não é ser menos. E muito menos, ser mais. Importa o que você pode ser e o que fará para chegar lá!
Por isso, hoje, estou mais tranquilo por ter comprado o kit da Thames & Kosmos. Com este brinquedo minha filha pode iluminar a casa de bonecas que ela já tinha e o que mais quiser em sua vida. Por enquanto ela está bem feliz pois conseguiu colocar as luzes para funcionar sozinha!
Veja como o comercial, visto por mais de 53 milhões de pessoas, termina: https://www.youtube.com/watch?v=XjJQBjWYDTs
 
 

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