Vendo máquina de fazer brigadeiro

Daniel Fernandes

06 de março de 2013 | 11h12

Se o brigadeiro-coxinha tivesse dado certo, o brigadeiro gourmet não existiria


O anuncio é verdadeiro, só não tive tempo ainda de botar no mercado livre. A engenhoca é seminova, faz três mil brigadeiros por hora e está parada no quarto de despejo, disputando espaço com um velho aspirador de pó. Não sou contra a tecnologia, mas a vida tem me dado bons motivos para permanecer analógica no ofício que escolhi.
Era o primeiro semestre do ateliê. Eu estava feliz, fazendo 30 brigadeiros sabáticos por dia e comendo, sem pressa, meu miojo com queijo de saquinho, quando um primo rico, empresário de capa de Exame, foi coagido pela minha avó nonagenária a me dar conselhos de como, afinal, progredir nos negócios.
A primeira providência a ser tomada, segundo ele, seria mecanizar o processo de produção, ou seja, nunca mais eu iria mexer uma panela de brigadeiro na vida. Fiquei arrasada, pois tinha largado o jornalismo justamente pra isso. Mas os homens que usam gravata sempre tem argumentos convincentes. “É preciso criar mercado para esse seu brigadeiro diferente, aposte nos bufês, que compram grandes quantidades para festas. E para dar conta dessa nova demanda você vai precisar necessariamente de uma máquina”.
Claro que não existia uma máquina para brigadeiro, fomos em várias fábricas de equipamentos industriais e, por fim, voltei para casa com um geringonça de fazer coxinha, que foi adaptada (sabe-se lá Deus como) para a função brigadeiro. No primeiro teste, passei a noite abrindo lata de leite condensado. Foram os 25 quilos para o lixo junto com outros 10 kg de chocolate e mais 5 kg de manteiga, fundidos numa maçaroca grudenta que parecia piche.
Foram meses insones fazendo testes noturnos na tal máquina de coxinha, enquanto de dia preparava, na panela, e sempre na hora, os brigadeiros das encomendas que recebia. Os pedidos foram crescendo e sobrava cada vez menos tempo para testar a máquina. Apesar do esforço e do prejuízo, o máximo que eu tinha conseguido até então era um doce gosmento, com gosto de bala de café que eu não tinha coragem de dar nem para o Torresmo, a cachorro chocólatra da vizinha, que me adotou oportunamente como dona.
O tempo passou e quando me dei conta, estava fazendo 3 mil brigadeiros por dia. E tudo na panela, do jeito artesanal que eu acreditava que ele tinha que ser feito. Ou seja, enquanto eu me preparava para atender um suposto mercado de bufês, um outro que ninguém supunha existir, o de consumidores ávidos por um novo brigadeiro, surgiu organicamente, bem debaixo do meu nariz.
Se o brigadeiro-coxinha tivesse dado certo, o brigadeiro gourmet não existiria, pois ele teria que voltar à sua fórmula original (com ingredientes de menor qualidade) para fechar a conta do bufê e a minha. A vida sabe o que faz. A gente, nem sempre.
 

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