Uso um G-Shock, mas isso só marca o tempo que passou

Daniel Fernandes

15 de julho de 2016 | 11h24


Qual foi a minha surpresa quando notei que o diretor de inovação de uma grande empresa de tecnologia usava um relógio Casio G-Shock igualzinho ao meu. A reação foi reciproca e simultânea. Então começamos a conversar sobre as maravilhas do relógio que nunca quebra, suporta os mais duros choques, tem uma bateria que parece infinita e você não tem dó de usar, seja na praia, na piscina ou na rua – afinal acho que nenhum ladrão vai ficar de olho no seu aparato do século passado.
Depois falamos do incentivo que as empresas de tecnologias vestíveis mais conhecidas pelo seu termo em inglês, wearables, têm criado para aumentarem suas vendas, mais baseadas na moda do que em resolver, de fato, as necessidades dos clientes. Como éramos criaturas do Século XX, lembrando que isto tinha sido válido inclusive para o relógio de pulso. Santos Dumont tinha imaginado um para resolver uma demanda pessoal que tinha: Não poderia pilotar um avião e ficar olhando um relógio de bolso para medir o tempo de duração dos seus vôos. Mas o que o seu fabricante, Louis Cartier, e outros concorrentes prévios como Patek Philippe, notaram é que aquela tecnologia vestível tinha mais apelo como um acessório de moda do que como um moderno e conveniente instrumento de monitoramento e controle pessoal do tempo. E o relógio de pulso se tornou um objeto de desejo entre os mais ricos da época que tinham pouca preocupação com o tempo.
E tempo passou, e as tecnologias vestíveis continuaram a se vender mais como algo da moda. Falei da grana que tinha investido nos meus três relógios de corrida, todos parcialmente encostados agora. Tecnologicamente, o próximo relógio era sempre superior ao anterior. O primeiro marcava o tempo e batimentos cardíacos, o segundo também a distância e a velocidade e o terceiro também se integrava ao computador.
Mas sinceramente, só tinha comprado o modelo mais avançado pois era mais bonito e até mais ostentador do que o anterior. Você até se sentia um Tony Stark, o Homem de Ferro, quando usava um. Mas quando surgiu o modelo que tinha um aplicativo e que poderia ser conectado às redes sociais, cheguei à conclusão de que o meu verdadeiro problema era só monitorar os batimentos cardíacos e o tempo de corrida. Não precisa correr para ficar me mostrando. Daí voltei a usar meus relógios de corrida quando corro (já que a bateria não dura tanto assim) e um G-Shock (apesar de ter a mania de ficar olhando o relógio de celular).
Assim como ocorreu com o relógio de pulso, há marcas de wearables que o(a) ajudam a se sentir melhor com a sua tecnologia e outros que te fazem se sentir pior por não ter o modelo mais atual e “da moda”.
Um exemplo interessante é a Lumo Bodytech. Criada no modelo mais tradicional do Vale do Silício, baseada inclusive em Palo Alto, epicentro da região, a Lumo criou o Lift, uma tecnologia vestível conectada a um aplicativo que corrige a postura da sua coluna. Mas como sabem que muitos usam wearables pela moda, fizeram uma parceria com a Swarovski.  Já receberam mais de US$ 16 milhões de investidores.
Outra startup que tem uma solução útil é Withings Aura. Eles desenvolveram um conjunto de tecnologias para quem precisa dormir melhor, mas não sabe como. Além de monitorar as condições do corpo durante o sono, também controla fatores externos como luminosidade e até a melhor música para dormir e acordar. Criada em Paris em 2009, recebeu mais de US$ 30 milhões de investidores até ser adquirida pela Nokia neste ano. A Withings é um exemplo que é possível empreender em wearables fora do Vale do Silício.
Mas de todas as startups de wearables, a Pavlok é uma das mais intrigantes pois ela literalmente te faz se sentir pior para com isto, se sentir melhor. Formado em Stanford, Maneesh Sethi é especialista em marketing, psicologia e tecnologia da informação e desenvolveu uma pulseira que te dá um choque todas as vezes em que você faz algo que acha que não deveria. Quer perder peso, mas não resiste a uma sobremesa? O dispositivo te dá um choque! Quer parar de fumar? Acendeu um cigarro, toma um choque! A startup já ganhou competições importantes e até chamou a atenção de um dos investidores do Shark Tank (veja o vídeo). Mas o empreendedor não aceitou a proposta (vídeo), chocando a audiência. Alegou que buscava um investidor que não apenas quisesse ganhar dinheiro, mas que estivesse realmente comprometido em melhorar a vida das pessoas.
Este é o verdadeiro choque que todos precisamos ter para melhorar o futuro!
Marcelo Nakagawa é Professor de Empreendedorismo do Insper e Diretor de Empreendedorismo da FIAP

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