Uma típica reunião empreendedora na Índia…pavão e rei mediador

Daniel Fernandes

24 de julho de 2014 | 07h05

Rafael Mambretti é empreendedor em São Paulo, mas resolveu passar um período sabático na Índia. É de lá que ele escreve toda semana.
Se você não leu o post da semana passada, leia
! Ele te ajudará a entender melhor o meu dia na vida de um empreendedor indiano. Recapitulando, acabamos de sair de um prédio que havia sido tomado pela população local por conta da venda de terras que não foram 100% pagas pela empresa que as comprou. Obviamente fiquei surpreso, mas não pela posse a força, mas sim pela razão. A população local não deixou quieto, é simples: não vai pagar? Então vamos tomar o seu prédio até que tudo seja resolvido.
Após a reunião no prédio, seguimos viagem para algumas horas depois (não use o Brasil como referência. na Índia 200 quilômetros podem significar quatro horas de estrada) chegarmos ao nosso (suposto) destino final. Particularmente, esperava chegar as terras onde o primeiro grande empreendimento da Ojaswini estaria, mas ao invés disso chegamos a um hotel; segundo Dave trata-se de uma propriedade do governo indiano.
Passados alguns minutos, uma pessoa que aparenta trabalhar para Dave veio nos encontrar. Comemos algo rapidamente e fomos seguindo o mais novo membro da nossa pequena comitiva. Não muito longe do hotel saímos da estrada e entramos naquilo que parecia ser uma grande propriedade particular.
O local era bem calmo, tranquilo e estava muito calor, mas naquele belo lugar, em meio ao silêncio da natureza e as sombras das árvores, já não fazia mais diferença se estava calor ou não. De repente avistei um pavão! Nunca tinha visto um assim, ‘solto’ na natureza! Vemos no zoológico, mas nunca em sua plena liberdade.
Fiquei encantado! Pedi e pararam para que eu pudesse tirar fotos.Um pouco mais para frente, chegamos em meio a duas grandes casas (descobri depois que as casas tinham mais de 200 anos) e algumas pessoas já estavam por ali. Mal sabia eu que estava para começar a mais longa e estranha (para a minha mente ocidental, claro) reunião da minha vida.
Havia cerca de 6 pessoas sentadas – ao ar livre – em cadeiras de plástico comum. Nos foi oferecido água e logo o bate- papo iniciou-se. Boa parte do tempo Dave, assim como as pessoas presentes, direcionavam seus argumentos para um dos homens sentado. Aparentemente não havia nada que poderia destacá-lo dos demais: não era mais velho, suas roupas não eram diferentes das dos outros, então, passou pela minha cabeça que ele era o chefe (assim como na outra reunião) do pessoal da vila, mas ao mesmo tempo não parecia ser, minha mente limitada não conseguia resolver este pequeno enigma.
Após 20 minutos de conversa, sem mesmo saber Hindi (língua falada nessa região da Índia), era perceptível um impasse. Parecia que a reunião não fluía, durante esses 20 minutos alguns participantes faziam e recebiam ligações. A resposta da minha indagação seria respondida, mais pessoas começaram a chegar em motos (sem capacete, diga-se de passagem) e o que eram 6 pessoas que não chegavam a um consenso agora passariam a ser 10.
Mesmo com o reforço, a dinâmica continuava a mesma, todos miravam a mesma pessoa para trazer seus argumentos, mas esse enigma ainda seria respondido. Deus intervém, o que todo mundo estava desejando e pedindo acontece: chuva! E das boas! A reunião é interrompida, vamos para uma parte coberta, um lustre bem antigo me chama a atenção, vale uma foto.
Foi o estilo do lustre que me levou a questionar quantos anos as casas tinham. A resposta? Mais de 200 anos e faziam parte de um antigo reino que existiu na região. Não bastasse a surpresa da idade das casas, Dave continua e me informa que o homem a que todos se dirigem na conversa nada mais nada menos é do que uma pessoa da linhagem do antigo rei da região, por isso é bem respeitado e está fazendo o papel de mediador na reunião.
Imagina! Semana que vem é o desfecho!
Não perca o fim da trilogia de um dia na vida de um empreendedor indiano, e que dia! Namastê,Rafael

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