Um país sem memória comete os mesmos erros

Daniel Fernandes

21 de agosto de 2015 | 07h18

Fernando Collor, Renan Calheiros e Dilma Rousseff durante cerimônia de chegada a Brasília dos restos mortais do presidente João Goulart, em novembro de 2013.
Um extraterrestre que estudasse a história recente do Brasil não entenderia a foto dos senadores Lindbergh Farias e Fernando Collor juntos e sorrindo. Tampouco a dos prefeitos Fernando Haddad e Paulo Maluf também juntos e se abraçando. Mas se estudasse a mente do brasileiro descobriria que o espaço reservado para a memória é reduzido e ele(a) só percebe o que está acontecendo agora ou no máximo ontem. O que ocorreu semana passada? Só consultando a agenda. Os sete a um a favor da Alemanha? Um passado bem distante já desindexado em nossa memória. Alguém prometendo que não mexeria nos direitos trabalhistas nem que a vaca tossisse? Quem foi mesmo?
Como a memória é curta, esquecemos, relevamos e não aprendemos com o passado.
Na semana passada, a Totvs anunciou a compra da Bematech por US$ 158 milhões e com isto terminou um ciclo da trajetória de uma das maiores histórias de empreendedorismo do Brasil.
Aquela lenda urbana de dois alunos de pós-graduação em engenharia que orientados pelo professor decidem transformar seus trabalhos de conclusão de curso em uma startup que cresce vertiginosamente, recebe aportes de investidor anjo e depois de venture capital, rapidamente domina o seu segmento e anos depois abre o capital na bolsa de valores é o resumo da história do Google, mas também é da Bematech.
Fundada em 1990 pelos então alunos de mestrado em engenharia elétrica Marcel Malczewski e Wolney Betiol, a Bematech nasceu para fabricar impressoras para máquinas de telex. A empresa quase quebrou nos primeiros meses porque praticamente nasceu no meio do Plano Collor que confiscou o dinheiro da população e das empresas, congelou preços e salários e aumentou os preços dos serviços públicos.
Mas o maior problema da empresa não era economia caótica criada pelo então arqui-inimigo do cara pintada Lindbergh Farias. Malczewski e Betion perceberam que o telex estava perdendo terreno para equipamentos de fac-simile. Para utilizar um termo utilizado atualmente, rapidamente “pivotaram” o negócio da empresa para o mercado de automação comercial e depois bancária, pois conseguiram atender o Banco Bamerindus, que também ficava em Curitiba, sede da empresa. Sim… o tempo passa, o tempo voa, e a poupança Bamerindus continua numa boa para os sabem a diferença entre um telex e um fax e que tiveram o dinheiro confiscado e/ou pintaram a cara em 1992.
Pouco menos depois de cinco anos desde a sua fundação, a Bematech já estava faturando US$ 5 milhões. Em dez anos, o faturamento pulou para US$ 34,5 milhões. Cinco anos à frente, a receita total pula para US$ 60 milhões e no ano seguinte, para US$ 88 milhões para em seguida, atingir US$ 150 milhões.
Sob vários aspectos, a Bematech é um grande caso de sucesso de empreendedorismo inovador genuinamente brasileiro. Todos os que sonham em empreender grandes negócios no país deveriam aprender com a sua trajetória.
Mas são raros os empreendedores brasileiros que conhecem esta empresa curitibana. Menor ainda é número que saberia falar alguma coisa do Marcel Malczewski e Wolney Betiol. E por esta razão, talvez apenas uma dezena de empreendedores brasileiros soubesse explicar como dois jovens estudantes de pós-graduação de engenharia juntam seus TCCs para criar o Google, uma empresa avaliada em cerca de US$ 400 bilhões e porque este valor é duas mil e quinhentas vez maior do que o pago pela Totvs pela Bematech.
A trajetória da Bematech é repleta de ensinamentos sobre o empreendedorismo moderno, inovador e global sobre como empreender no Brasil do Collor ao Brasil da Dilma.
Entender o passado talvez não aumente o número de acertos no futuro, mas deveria evitar, pelo menos, os mesmos erros cometidos.
Marcelo Nakagawa é diretor de empreendedorismo da FIAP e professor do Insper

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