Um país em que a ordem e o progresso funcionam

Daniel Fernandes

10 de julho de 2015 | 07h12


Marcelo Nakagawa é professor de empreendedorismo do Insper
Quem nunca veio, provavelmente vai criticar, mas é difícil aceitar que os Estados Unidos funcionam pela simples razão de que há ordem e por isso, progresso. Mas entre estes dois conceitos, também há o empreendedorismo.
O país foi fundado por empreendedores que viam oportunidade nesta terra e não por oportunistas que viram uma chance de ganhar dinheiro fácil e daí voltar a sua terra natal.
O trabalho sempre foi visto como algo nobre e o lucro, uma virtude. Não por acaso, até hoje, as crianças norte-americanas brincam de criar suas barracas de limonadas e sempre contam com o apoio da comunidade em que moram.
Do primeiro presidente, George Washington, que disse que “99% dos fracassos vêm das pessoas que dão desculpas” ao último, Barack Obama, que ganhou afirmando que “sim, você pode”, diversos presidentes se tornaram ícones mundiais de liderança e suas falas e atitudes continuam a inspirar empreendedores, inclusive ao redor do mundo.
Por essas e outras, visitar os Estados Unidos sempre representa novas oportunidades de aprendizado. Desta vez, passo as férias em San Diego, Califórnia, de onde escrevo. Com quase 1,4 milhão de pessoas, a cidade é quase do tamanho de Guarulhos e chama a atenção o clima seco da região. Por isso, a água é trazida de um rio que fica a mais de mil e cem quilômetros. Seria como a cidade de São Paulo fosse buscar água em Porto Alegre. E mesmo assim, San Diego é a segunda melhor cidade para se morar nos Estados Unidos.
É possível explicar isto por meio de diversas estatísticas, mas o empreendedorismo pode esclarecer boa parte da ordem e do progresso da cidade. Um exemplo, é o seu maior símbolo, o Parque Balboa. Ocupando uma área de pouco mais do que o dobro do Parque do Ibirapuera, o local reúne quinze museus, incluindo os meus preferidos de ciências, aeroespacial e história natural. Não estudei se os gestores atuais têm um perfil mais empreendedor, mas a quantidade de visitantes em cada um dos museus, mesmo sendo observada em um dia da semana, surpreende.
Mas o destaque do Balboa é o San Diego Zoo, considerado o melhor e o mais importante zoológico do mundo. Só quem conhece o local entende como a experiência é muito impressionante. Mas os museus e o zoológico não seriam tão impecáveis e inovadores se não fossem as contribuições dos inúmeros doares, em sua grande maioria, empreendedores.
Nos Estados Unidos há uma cultura consolidada, incluindo incentivos fiscais, dos empreendedores doarem parte de suas fortunas para ações do bem estar comum. Mas a doação também é de cobrança de resultados. Os melhores empreendedores não doam, investem, mesmo que o lucro seja apenas social. O sentimento que impera em todos é sintetizado na frase de John Kennedy, outro presidente icônico norte-americano: “Não pergunte o que seu país pode fazer por você. Pergunte o que você pode fazer por seu país”.
Esta frase só faria sentido para um país que busca incessantemente a ordem e o progresso.  Mas em casos assim, antes da ordem, vem a lei e a confiança.
Para outros países em que prevalece a Lei de Gerson para os mais espertos e a Lei de Murphy para os menos favorecidos, a ordem e o progresso só ficam pendurados na parede.

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