Um Brasil melhor: A hora e a vez do empreendedorismo do servidor público

Daniel Fernandes

26 de junho de 2015 | 07h13

 

Marcelo Nakagawa é professor de empreendedorismo do Insper
Quem nunca reclamou de um serviço público? O número é tão alto que o site ReclameAqui lançou um serviço exclusivo para este tipo de queixa.  Apenas o INSS, já reúne um pouco mais de mil reclamações desde fevereiro, quando o ReclameAqui Serviços Públicos foi lançado. Mesmo elevado, o número de reclamações do INSS está bem atrás da ANATEL, SPTrans e Prefeitura de São Paulo, que estão à frente no ranking de reclamações.
Mesmo assim, milhares de brasileiros sonham com a carreira pública. Neste ano, está previsto um concurso público para preencher cerca de 4.700 vagas no INSS e espera-se que mais de 200 mil candidatos. A relação de 43 candidatos por vaga é alta, mas nada se compara ao concurso de analista judiciário do Tribunal Regional do Trabalho no Rio de Janeiro, onde a relação atingiu astronômicos 17.972 interessados pela única vaga. Mas a Petrobrás, mesmo na situação em que está, é um bom parâmetro: A relação candidato/vaga chegou a 470 neste ano.
Neste patamar de competição, só passa os melhores dos melhores. Entrar na Petrobrás não significa bater 469 outros candidatos, mas chegar nas primeiras posições entre as 310.893 pessoas que prestaram o concurso.
Por isso, não raro, entra uma pessoa muito bem qualificada, com graduação, mestrado e até doutorado, pós-doc, cursos no exterior. Mas entra uma função mais básica, que, em geral, exigiria apenas alguns conhecimentos técnicos para exercer a função. Só esta situação já desmotiva as pessoas mais bem preparadas. Mas pode piorar já que os funcionários públicos lidam com escassez crescente de recursos. Em situações extremas, chegam a levar seu material de trabalho e até papel higiênico, naquelas iniciativas esquecidas pelos dirigentes públicos.
Na situação atual em que a arrecadação é decrescente, haverá menos recursos ainda para investir nos serviços e servidores públicos, daí o que espera que vai acontecer com a lista e a quantidade de problemas dos serviços públicos?
O que fazer para resolver este desafio de muitos problemas e poucos recursos? Cruzar os braços? Greve? Fingir que está tudo normal? Enganar com promessas que não serão cumpridas? Abandonar a carreira pública?
Entre sair gritando e sentar e chorar, os dirigentes, gestores e servidores públicos deveriam analisar os exemplos de quem vê oportunidades nos problemas e que consegue fazer mais com menos: os empreendedores.
Seja no governo ou na iniciativa privada, os empreendedores organizacionais irão encontrar três portas fechadas: A porta do “não pode”, do “não dá” e a do “não vai funcionar”.
A primeira porta se abre com a chave da sanidade: Se ninguém fizer nada, o problema continuará (e provavelmente aumentará). Para um funcionário público chamado Albert Einstein, “insanidade é continuar fazendo sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes”.
A porta do “não dá” é aberta com a chave da inovação. “Não podemos resolver problemas usando o mesmo tipo de pensamento que usamos quando os criamos” – dizia esse mesmo servidor público.
E tem a última porta, por vezes mantida fechada por muitas pessoas atrás que torcem contra. Se não posso atrapalhar, ajudar é que não vou – pensam, mesmo que inconscientemente. Assim, só uma grande pessoa será capaz de avançar porta adentro. “Grandes espíritos frequentemente encontram violenta oposição de mentes fracas” – dizia Einstein.
É difícil e muitas vezes parece impossível empreender dentro das organizações. Mas os verdadeiros empreendedores nem percebem que havia uma primeira grande porta escrita “por quê?”. Por que empreender? Por que ficar abrindo portas cheias de “não”?
Porque para os empreendedores, o “não” aparece depois… Por que não?