Trabalhar remotamente não significa trabalhar em casa para sempre

Trabalhar remotamente não significa trabalhar em casa para sempre

O 'anywhere office' consiste em trabalhar onde for melhor para todos da empresa e não apenas para si; a questão é se os profissionais estão prontos para lidar com tanta liberdade com responsabilidade 

Ana Vecchi

23 de julho de 2020 | 13h33

As discussões sobre home office e o que esta forma de trabalhar provocou têm sido interessantes, ainda que pareça que todos os profissionais passaram a ser muito mais produtivos, cocriativos, confiáveis, colaborativos e engajados durante a pandemia do novo coronavírus. Todos nós viramos verdadeiros gênios, ou quase. É tudo de bom, não? Supervalorização ou esperança de que seja assim?

O equilíbrio entre vida pessoal e profissional trouxe à pauta diária o que seria necessário para criar uma rotina que evitasse interrupções, falta de concentração, não prejudicasse a produtividade, mas que aceitasse crianças passando, descabeladas ao acordar, nas costas de quem estaria em um call ou na tela compartilhada de uma reunião pelo Zoom, assim como latidos e miados passaram a fazer parte do fundo musical, sem repreensão dos donos.

No começo, a gente pedia desculpa e falava algo para justificar o novo cenário. Agora, o estranho é explicar com cara de sem graça, se desculpar ou não dar atenção a alguém de casa que te trouxe um café, à criança que interrompeu ou ao pet que subiu no seu colo.

Os que ficaram deprimidos, com dores nas costas causadas pelas cadeiras erradas e por conta de um cafofo sem iluminação adequada ou uma janela que ventilasse agradavelmente, já que ar condicionado não fez parte do layout daquele que era o quarto da bagunça e virou office, sentiram-se isolados e a solidão veio, mas estão mais presentes nas lives de grupos terapêuticos e se veem como os “inadequados e inflexíveis” ou fora da curva do novo normal. Porque para variar, no mais das vezes, tudo parece “mundo de Caras”, fotos e posts só do que é bonito, feliz, saudável, atraente, tendência ou da moda, elaborado dentro dos padrões definidos como bons.

Os processos de seleção passaram a avaliar o grau de flexibilidade que um profissional tem, analisando quão feliz ele ficou ao trabalhar em casa no seu quarto, enquanto o/a cônjuge trabalhava na sala, no corredor dos quartos os filhos faziam aula online, e o bebê era alimentado na cozinha pela sogra…. Se disser que não foi legal, pode significar inflexível? 

A pandemia transformou as relações de trabalho e a forma como o home office é encarado. Foto: Pixabay

O sonho de trabalhar em uma empresa legal, com um escritório moderno, e se relacionar com pessoas diferentes, com valores e propósitos similares, com quem a gente trocaria ideias e aprenderia ou compartilharia algo, parece coisa de outro mundo e que nunca foi bom, que jamais deu prazer levantar numa segunda-feira e se arrumar para ir àquele ambiente que, dos sonhos, tinha virado realidade. 

Trabalhar no horário convencionado versus aquele que nos faz bem, escolhemos e produzimos melhor passou a fazer parte da realidade dos empresários que não acreditavam nesta possibilidade, desconfiavam de quanto os funcionários cumpririam as metas e seguiriam as regras de suas organizações. Durante 120 dias de confinamento, já que sentimos mais do que isolamento social, o mindset empresarial mudou de um jeito jamais visto. 

Importante contextualizar o que é flexibilidade, adequabilidade, engajamento, equilíbrio e o novo normal. Isso é diferente de descrever uma conjuntura em função de uma pandemia e suas consequências! Há soft skills muito relevantes as serem analisadas e quais são elas diante de um cenário tão indefinido, ainda?

As dicas de como estruturar o home office vem desde a década de 1990, quando franqueados atuariam em suas casas e precisariam criar exatamente o mesmo ambiente de trabalho de hoje, sendo que atualmente contam com a internet que começava a engatinhar à época. E não era coisa de microfranquia não! A gente ria gostoso quando um franqueado de fast food, que vinha do mercado corporativo, de grandes empresas, perguntava onde seria a sala dele na loja a ser instalada na praça de alimentação. Ele fazia a gestão administrativa e financeira em sua casa, mas a operação era na loja, sem mesa de escritório, lógico.

Importante entender que o trabalho remoto compreende várias possibilidades e pode ser uma ótima escolha para quem não quer trabalhar em casa nem na empresa todos os dias. Os coworkings já vinham fazendo tanto sucesso com empresas e profissionais pois pode-se ter a empresa alocada em um deles, alugar uma sala individual ou ficar em um espaço compartilhado por várias pessoas – depende do perfil e do bolso de cada um.

Ainda existe a escolha de pegar seu smartphone, tablet, iPad ou notebook e parar em uma cafeteria, escolher uma mesa e trabalhar de lá, só ou com alguém da equipe, fornecedor ou cliente. Conveniência e liberdade são as palavras que definem esta escolha. Fatores envolvidos: astral do dia, agenda, reuniões e distância dos locais. Disciplina e planejamento fazem parte do pacote. 

A interação e a conexão com a empresa e time não deixaram de existir e se mostram até mais felizes, vamos assim dizer. Já o se encontrar presencialmente com alguém devido ao trabalho, porque quer ou precisa por um motivo maior que a obrigação é bem sedutor e produz a deliciosa sensação de que valeu a pena. 

O anywhere office consiste nesta proposta de podermos trabalhar onde for melhor para todos e não apenas para si. O que fizer melhor para cada um de nós e refletir no bem de todos ligados, direta e indiretamente, à empresa e à marca permite esta escolha, A questão que fica é quanto você está pronto para lidar com tanta liberdade com responsabilidade? 

O anywhere office não aceita anyone agindo anyway, ou seja, o trabalho remoto não é para qualquer um que trabalhe em qualquer lugar, de qualquer jeito. Simples assim e a escolha continua sendo de cada um.

* Ana Vecchi é consultora de empresas, fundadora e CEO na Ana Vecchi Business Consulting, professora universitária e de MBA, pós-graduada em marketing e com MBA em varejo e franquias. Atua no franchising há 30 anos, no ciclo de vida das empresas, da criação à expansão de negócios e ocupação estratégica de mercado. É mentora de investidores e empreendedores, além de conselheira de empresas tradicionais e startups.

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