Tese aponta caminhos para crise da habitação, que piorou com coronavírus

Tese aponta caminhos para crise da habitação, que piorou com coronavírus

Desafios da moradia enfrentados pela população de menor renda foram agravados pela pandemia; problemas grandes e complexos demandam soluções inovadoras e de impacto social

Maure Pessanha

30 de setembro de 2020 | 14h03

A moradia é um elemento central na vida do ser humano. Um tema que ultrapassa o mero conceito do morar. A relação da habitação com o entorno, a estreita associação com o desenvolvimento urbano e o acesso a políticas públicas – como saúde e educação – são somente três dos recortes passíveis de análises sobre essa correlação com o bem-estar das pessoas.

Quando aplicamos uma visão mais ampla, refletindo sobre os déficits habitacionais qualitativo e quantitativo no Brasil, enxergamos dois grandes desafios: como levar a cidade para as pessoas e as pessoas para as cidades. Claro que em uma perspectiva de cidade que propicia dignidade e acesso a uma vida digna.

A edição 2020 da Tese de Impacto Social em Habitação – revisada à luz dos impactos da pandemia – mostra um cenário aterrador, no qual os riscos físico, psicológico, social e econômico foram agravados dentro dos mais de 11 milhões de moradias insalubres.

Enquanto a primeira edição do mapeamento correlacionou a habitação com melhores oportunidades para a população em situação de vulnerabilidade social e econômica, a nova versão revelou a urgência de iniciativas imediatas para resolver o problema, colocando o ser humano no centro do processo. Como direito fundamental, morar tem uma abrangência tão imensa, sobretudo no contexto da covid-19, que determina o viver ou morrer.

O estudo aponta que a crise na habitação no Brasil agravou-se com a disseminação do novo coronavírus, porque muitas pessoas não encontraram em seus próprios lares a proteção necessária para evitar o contágio. Nas habitações insalubres, pequenas e com ventilação comprometida, os moradores são privados do distanciamento social, no caso de um dos habitantes apresentar sintomas da doença. O entorno também é um risco à saúde: falta saneamento básico, esgoto sanitário, água potável e coleta de luxo. São inexistentes, portanto, as condições dignas para um ser humano viver.

Vista do bairro Paraisópolis, zona sul de São Paulo. Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Philip Yang, fundador do Instituto de Urbanismo e Estudos para a Metrópole, aponta que o maior risco para a morte por covid-19 não é uma condição biológica; antes, é uma condição social. As pesquisas comprovam: na cidade de São Paulo, os óbitos causados pelo vírus foram em maior número nos bairros periféricos como Grajaú, Brasilândia e Cidade Ademar.

Nesse cenário, a Tese conduzida por uma coalizão formada pela Artemisia, Gerdau, Tigre, Instituto Vedacit e Votorantim Cimentos, com apoio do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (CAU-BR), da Caixa, do negócio de impacto social Vivenda e da Habitat para a Humanidade Brasil – mapeou os principais desafios de habitação enfrentados pela população de menor renda, agravados pela pandemia, e apresentou as oportunidades voltadas ao desenvolvimento de negócios de impacto social que possam trazer melhoria para brasileiros e brasileiras.

Desafios grandes e complexos demandam soluções inovadoras de diferentes atores e empreendedores da nossa sociedade. Acredito que, por nascerem com a intenção de oferecer produtos e serviços focados nas resoluções de problemas sociais, essas empresas têm um real potencial de enxergar soluções onde há problemas.

* Maure Pessanha é empreendedora e diretora-executiva da Artemisia, organização pioneira no fomento e na disseminação de negócios de impacto social no Brasil.

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