Teoria de Mudança: uma ferramenta para planejar e avaliar o impacto social do negócio

Teoria de Mudança: uma ferramenta para planejar e avaliar o impacto social do negócio

Mais do que uma ferramenta para auxiliar empreendedores, a Teoria de Mudança provoca um olhar mais qualificado sobre nossas iniciativas e requer honestidade para se reconhecer os desafios

Maure Pessanha

07 de novembro de 2019 | 10h45

Quais são os maiores compromissos de um negócio ou iniciativa de impacto social? A pergunta está profundamente associada à capacidade de reunir elementos de análise, em uma cadeia lógica, para relacionar e desenvolver ações, produtos, resultados e impacto. Quando pensamos especificamente em empresas com foco em transformação social, a metodologia da Teoria de Mudança (TM) surge com a função de auxiliar empreendedores e empreendedoras a compreender aspectos essenciais para atingir os objetivos de negócio e de impacto.

Para criar um processo robusto, proprietário e eficaz de aceleração, escolhemos essa ferramenta. No cerne da decisão, está a demanda por um instrumento para criar um esquema visual sistêmico e criativo, destinado a planejar e medir possíveis impactos. A ideia é tornar visível – para gestores, profissionais, público-alvo e possíveis investidores – quais mudanças o negócio pretende produzir para resolver um problema social ou ambiental.

Carol Weiss, que primeiro apresentou o conceito, conta que a Teoria de Mudança emergiu de debates conduzidos pelo Aspen Institute, dando origem ao chamado Roundtables on Community Change. No plano teórico, a TM está associada às Avaliações Orientadas pela Teoria (Program Theory Evaluation) e a utilização parte de uma tentativa de responder a algumas indagações fundamentais.

Por que é tão difícil evidenciar as mudanças provocadas pelas intervenções? Por que os atores envolvidos em um projeto, programa ou negócio têm dificuldade de entender as etapas e os caminhos que se envolvem? Por que é tão desafiador entender as premissas que pautaram as mudanças sociais propostas?

Com esse ponto de partida, foram criados fundamentos básicos que norteiam a aplicação da Teoria de Mudança por empresas e organizações. As principais demandas que a iniciativa social deve ser capaz de apontar, os resultados esperados (que se desejam alcançar) e as transformações sociais com as quais se compromete; deve demonstrar quais etapas serão percorridas até que os resultados sejam alcançados (explicitar passos, entregas, caminhos e prazos necessários ao propósito); ter clareza sobre os públicos-alvo, atores necessários ao trabalho e estratégias para produzir o resultado esperado; definir os pressupostos nos quais apoia as ações – o que vai ampliar o grau de certeza sobre a capacidade de produzir os resultados estipulados; e, por último, deve ser capaz de oferecer uma narrativa clara e convincente sobre os propósitos e estratégias.

Mas para que serve a Teoria de Mudança?

É um instrumento analítico para apoiar processos de planejamento, monitoramento e avaliação; engajar stakeholders em uma visão compartilhada; criar expectativas realistas sobre a iniciativa e possíveis resultados; orientar e embasar processos de decisão estratégica; alinhar missão, propósitos organizacionais e estratégias; criar alavancas para aumentar a efetividade de uma organização ou empresa; e favorecer o posicionamento e comunicação.

Na Artemisia, além de utilizar a ferramenta em aceleração de negócios, também a implementamos na própria organização. Em 2017, iniciamos um processo de construção da nossa TM com apoio da Move Social. Tem sido uma jornada muito rica, sobretudo porque é aplicada de forma colaborativa.

Negócios de impacto social e ambiental podem ajudar a mudar cidades em temas como mobilidade, por exemplo. Foto: Rafael Arbex/Estadão

De início, pode parecer um processo normativo de uma teoria de ação, mas não se trata disso. Estamos falando de uma condução na qual o pensamento complexo se encontra a serviço do reconhecimento de que todos os públicos envolvidos no processo importam, influenciam e governam o pensar em como um negócio – ou organização – vai tornar tangível o impacto social ou ambiental. É também uma plataforma de diálogo que permanece constantemente aberta a ajustes e amadurecimento. Longe de ser um manual de instruções da realidade, mais se parece com um navegador centrado em pontos cardeais.

Implementar a Teoria de Mudança requer profunda honestidade para reconhecer as realidades complexas e desafiadoras do empreender (negócio ou iniciativa social), porque as dificuldades não podem ser maquiadas, manipuladas e ignoradas. São essencialmente essas dificuldades a matéria-prima para produzir resultados ao agirmos em cima desses dados. De maneira alguma, deve ser entendida como uma peça para um planejamento convencional, pois se trata de um produto de muita reflexão crítica e da força criativa de um grupo – seja empresa ou organização social.

Para os interessados em saber mais sobre o tema e adquirir informações para a implementação da Teoria de Mudança, recomendo acessar o Guia Prático de Avaliação para Negócios de Impacto Social, disponível para download gratuito. Esse conteúdo foi produzido pela equipe da Artemisia em parceria com a Agenda Brasil do Futuro e a Move Social. Além da Teoria de Mudança, o guia prático traz conceitos importantes na avaliação de negócios de impacto social e o passo a passo para essa medição.

Com um texto simples e explicativo, aborda cada item com casos concretos, vídeos, websites, dicas de leitura e exercícios de brainstorming – que ampliam a compreensão da equipe e mostram como conduzir a mensuração adequada a cada estágio da iniciativa e área de atuação. O guia foi organizado por Rogerio Renato Silva, Max Gasparini, Elis Alquezar, Paola Gongra e Antonio Ribeiro.

Para finalizar, ressalto que mais do que uma ferramenta a TM provoca um olhar mais qualificado e responsável sobre as nossas iniciativas, negócios e ações. Em um mundo líquido, no qual muitas vezes se faz pouco, mas fala-se muito (ou vice e versa), a TM se torna um valioso mapa que nos coloca na rota certa e nos oferece a medida real da mudança que estamos causando no mundo.

* Maure Pessanha é empreendedora e diretora-executiva da Artemisia, organização pioneira no fomento e na disseminação de negócios de impacto social no Brasil.

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