Superficialista, o novo especialista influenciador não sofre da síndrome do impostor

Superficialista, o novo especialista influenciador não sofre da síndrome do impostor

Enquanto muitos reclamam da superficialização do conhecimento, outros enxergam a oportunidade de continuar se reinventando e evoluindo por meio de novos aprendizados

Marcelo Nakagawa

11 de abril de 2019 | 17h11

Ed Catmull adora contar sua trajetória em palestras para os novos funcionários da empresa que cofundou. Ele explica que, quando ainda era gerente na antiga empresa em que trabalhava, não se sentia como tal. Embora gostasse da ideia de ser o responsável, ia todos os dias para o trabalho sentindo que era uma fraude.

Mesmo nos primeiros anos do negócio que criou, quando iniciou como presidente da companhia, aquele sentimento não o deixava. Conhecendo outros presidentes, sua sensação de fraude só aumentava. Ele sabia que não sabia tudo o que deveria saber. Mas depois compreendeu que foi justamente esta percepção que o incentivara a aprender rápido e evoluir continuamente.

Não ter sempre as respostas passou a ser sua motivação não apenas para buscá-las, mas, principalmente, para formular novas questões que mantinham a sua sensação de ser um impostor. O que era um incômodo tornou-se seu motor de autodesenvolvimento. Depois disso, sempre termina a palestra com a pergunta: “Quem de vocês sentem que são uma fraude?” E, invariavelmente sempre, todos os funcionários da Pixar, a empresa que Catmull cofundou, levantam a mão!

Ed Catmull, cofundador da Pixar, em imagem de 2012. FOTO: Asa Mathat/Reuters

Desde que o filósofo Sócrates alegou, por volta de 410 a.C., que só sabia que não sabia, os estudiosos nos mais diversos ramos do conhecimento perceberam que, mesmo tendo um profundo conhecimento sobre um determinado assunto, seu desconhecimento a respeito era incomensuravelmente maior. Daí o respeito aos métodos científicos e tecnológicos de pesquisa, construção, validação e disseminação do conhecimento em um processo cíclico evolutivo para o infinito e além.

O rigor e a contínua construção do conhecimento e sua constante insignificância diante da sua amplitude, multidimensionalidade e velocidade das mudanças, que antes eram a base da formação dos especialistas nos mais diversos temas, agora são “superficializados” pelos oportunistas que melhor dominam as técnicas de ganhos de popularidade nas redes sociais. Em situações extremas, chegam a comprar audiência e seguidores em fazendas de cliques para parecerem mais relevantes e desta forma atrair outros cujo conhecimento sobre aquele tema é ainda mais raso ou inexistente.

O “superficialista”, este novo tipo de especialista que prolifera nos ambientes digitais, especializou-se em replicar conteúdo de terceiros sobre temas tão complexos como ciência dos dados, neurociências e propósito, apropriando-se dele como se fosse de sua autoria e tentando, desta forma, se posicionar como a verdade naquele assunto.

Muitos destes novos especialistas têm, ainda, experiências educacionais e profissionais questionáveis e daí a dúvida dos mais atentos sobre como se tornaram tão relevantes em tão pouco tempo.

“Há muitos especialistas do ontem. Não há especialistas do amanhã. O que fazemos [no Alibaba] é aprender”

Do outro lado, aqueles que sabem um pouco mais, conscientes da sua própria fraude, sentem-se cada vez menores diante do aumento exponencial da quantidade de informações da sua especialidade agravados pelo fato do prazo de validade do seu conhecimento ter ciclos cada vez mais curtos. Desses, enquanto muitos reclamam da superficialização do conhecimento, outros enxergam a oportunidade de continuar se reinventando e evoluindo por meio de novos aprendizados.

“Eu acredito que hoje não existem especialistas destas coisas”, diz Jack Ma sobre temas como ciência dos dados, computação em nuvem, inteligência artificial, aprendizagem máquina que tem evoluído drástica e “disruptivamente” nos últimos anos. Sendo o principal empreendedor da China e cofundador do Alibaba, um colosso tecnológico com valor próximo de US$ 500 bilhões e que lidera estes assuntos no mundo, além de ser um dos principais players mundiais de comércio eletrônico e serviços bancários digitais, Jack conhece alguma coisa nestas áreas.

“Não me diga que alguém é especialista em comércio eletrônico. Não me diga que alguém é especialista em internet. Eu vou contar uma história. Em 1996, eu fui convidado para uma reunião em Beijing sobre a internet. Naquele momento, a China não estava conectada à internet ainda. Então eu fui lá e havia umas 12 pessoas em uma sala. Eles se autoproclamavam especialistas de internet. E disse: O quê? Nós temos especialistas de internet? Eles tinham muitas preocupações. Se preocupavam com isso, com aquilo. Depois de 20 anos, todas as coisas que eles se preocupavam nunca aconteceram. E todas as coisas que eles não se preocupavam, todas aconteceram. Há muitos especialistas do ontem. Não há especialistas do amanhã. O que fazemos [no Alibaba] é aprender. Nós o contratamos não porque tem qualificações. Nós contratamos você porque será qualificado se aprender junto conosco. É isso que o Alibaba quer! Nós contratamos pessoas que estão ávidas por aprender. Estão prontas para assumirem riscos. Estão prontas para fracassar. E estão preparadas para resistir. E nós acreditamos que talvez daqui a 15 ou 20 anos, eles serão os especialistas de todas as áreas… da história”, diz Jack Ma.

O próprio Jack se sente um impostor muitas vezes. Há muitos livros que tentam dar a receita de sucesso do Alibaba e a capacidade visionária do seu principal fundador. “O que é falado do Alibaba não é verdade. Se eu escrevesse um livro, o título seria: Alibaba – Os mil e um erros”, diz. Ele explica que não eram especialistas em internet nem em comércio eletrônico e não tinham um modelo de negócio. O único motivo que pode explicar onde o Alibaba chegou foi a intensa capacidade contínua de aprendizados de todos que formam a empresa.

* Marcelo Nakagawa é professor de Inovação e Empreendedorismo do Insper