Meias verdades: o chocolate caseiro que, na verdade, é industrializado

Daniel Fernandes

14 de julho de 2016 | 13h46

Não tinha como não gostar, quando li uma matéria numa revista gringa, em 2008, sobre a fantástica fábrica de chocolate artesanal de dois irmãos jovens, tatuados, barbudos, que se divertiam fazendo chocolate e velejando o mundo em busca do cacau perfeito. Os Mast Brothers começaram no apartamento no Brooklyn em 2007 e rapidamente se transformaram em celebridades do trabalho artesanal em Nova York e uma referência da nova gastronomia “feita a mão”.

Eu era fã declarado e divulgador pro bono, ao ponto de que, quando viajava a NY trazia as barras de chocolate deles como lembrança de viagem aos amigos. A embalagem também é, de fato, belíssima.

No final do ano passado uma notícia no jornal The New York  Times derreteu o respeito e a admiração que eu tinha pelos irmãos descolados e sua marca.Em resumo, foi descoberto que alguns dos chocolates vendidos pelos brothers eram, na verdade, produto industrializado, reprocessado, embalado e vendido por US$ 10 a barra (aproximaadamente R$ 37,00), um preço apenas justificável pelo suposto trabalho artesanal, e principalmente pela garantia de origem do cacau. Até a barba, que conferia um ar “lenhador hipster” aos irmãos, foi uma criação de marketing.
O storytelling – seja de um produto, uma marca ou de uma pessoa – quando honesto, é algo positivo e serve para contextualizar, ambientar e nos fazer perceber o valor de tudo o que está em jogo. Mas, se a história é boa demais, é bom tomar cuidado, pois pode ser criação de um marqueteiro – do tipo que conta as histórias de nossos políticos em campanha.
Aqui no Brasil tivemos também dois péssimos exemplos recentes – e mais uma vez, eu acreditei em tudo e era consumidor de ambas marcas – que foi o sorvete da Diletto e o suco da Do Bem.
A Diletto contava a história de um vovô italiano que criou as receitas dos sorvetes com frutas e neve, mas foi obrigado a vir ao Brasil por causa da segunda guerra mundial. Chegava ao detalhe de mostrar fotos de um carro antigo que era usado para vender sorvete pelo tal vovô. Eu me identifiquei de imediato com a história contada pela marca, que foi inclusive divulgada em jornais e revistas como verdadeira, e esta empatia me fazia pagar feliz por um produto caro. Em 2014 o assunto veio a tona e o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) obrigou a empresa a explicitar que o personagem não existe.
Já a suco Do Bem afirmava nas embalagens que as laranjas eram da fazendo do Seu Francisco, colhidas fresquinhas, e feito por jovens cansados da mesmice. Uma história matadora, sem dúvida que isso merece apoio do consumidor. Só que depois foi descoberto que a laranja era mais do mesmo, fornecida por uma multinacional.
Já deu para perceber que sou bem ingênuo, não é? Me emociono fácil e acredito numa boa história. Ou talvez eu apenas queira de fato consumir produtos que tenham valores que eu defendo como cidadão e, portanto, como consumidor.
Procuro levar essa mesma crença a sério como empreendedor. Por isso, um dos ingredientes que eu levo em conta no meu negócio é a autenticidade: tudo o que está envolvido no Pastifício Primo – da matéria-prima dos nossos alimentos à decoração de nossas lojas, passando pela linha de comunicação e pelas referências que fazem o estilo de nossa empresa -, tudo está genuinamente relacionado ao que eu gosto, uso e acredito.
Porque storytelling, para se perpetuar, precisa que a “story” seja verdadeira. O “telling” é consequência.
Ivan Primo Bornes – o fundador e masseiro do Pastifício Primo escreve toda semana no Blog do Empreendedor.

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