Startup faz diagnóstico de doenças raras baseada em inteligência artificial

Startup faz diagnóstico de doenças raras baseada em inteligência artificial

Por meio da análise de dados, a Nindoo interpreta o problema do usuário e acha o melhor modelo para resolver sua demanda, seja ele médico, aluno, pesquisador ou paciente

Maure Pessanha

12 de junho de 2019 | 10h01

Distante de uma visão apocalíptica da tecnologia substituindo o ser humano e moderada por um genuíno intuito de transformar positivamente a vida das pessoas, há infinitas possibilidades para a inteligência artificial (IA). No documentário Supersapiens, o diretor e roteirista Markus Mooslechner explora a tecnologia que liga o homem à máquina – e uma mente à outra –, mostrando um mundo que caminha para a consciência coletiva tecnológica. O título é uma alusão ao ponto da virada do homo sapiens para a evolução da mente humana.

No filme, os especialistas entrevistados defendem que estamos entrando na era da experimentação. No passado, a capacidade física humana era a medida da produtividade; depois, na era da informação, o intelecto e a mente passaram a cumprir esse papel central. Hoje, as tecnologias são totalmente imersivas, afetando profundamente a forma como experimentamos a vida.

Na minha percepção, ao ingressar na era da experimentação se faz necessário fomentar uma nova geração de criadores capazes de estimular mudanças radicais na consciência humana e no coração. É aqui que entra o ser humano no centro do processo, ou seja, as inovações devem seguir uma ética, lógica e profunda conexão com o que há de mais humano em nós. Nesse contexto, alguns negócios de impacto social já atuam com inteligência artificial no âmbito da transformação de vidas. Um dos exemplos é a Nindoo.

Os sócios da Nindoo (da esq. à dir.) Rodrigo Hernandes, Dimas Timmers e Gian Franco. Foto: Marco Torelli

A ideia para a criação da empresa surgiu da própria vivência de Dimas Timmers. O empreendedor tem uma doença genética conhecida como distonia mioclônica, caracterizada por hiperatividade na zona do córtex frontal e sensorial, que gera uma confusão no sistema nervoso central. Os sintomas dessa síndrome rara – que afeta os movimentos e provoca espasmos – tiveram início na infância, aos seis anos, com crises epiléticas. Pela falta de diagnóstico correto, os médicos prescreveram um tratamento para epilepsia, que se prolongou por 14 anos. Nesse período, a dificuldade na escola e os problemas causados por pânico e medo levaram o empreendedor a se refugiar na tecnologia: aos 13 anos já programava softwares.

Em 2007, ele começou a estudar inteligência artificial. O tratamento obviamente não surtiu efeito e a busca por um diagnóstico correto o fez sair da cidade de Caxias do Sul em busca de respostas. Em São Paulo, começou a empreender seriamente na área de saúde; criou primeiro a H-Science – focada em IA para doenças raras. Pela experiência e por pesquisar exaustivamente, Dimas suspeitava sobre a verdadeira patologia que o acometia; após confirmar o diagnóstico, convergiu a empresa em Nindoo.

Ao longo da sua trajetória, consultou 20 médicos e só aos 30 anos obteve o diagnóstico correto. Essa jornada fez com que enxergasse o impacto que a inteligência artificial poderia trazer à vida das pessoas a partir das análises de padrão relacionadas a concussões mais precisas e rápidas de diagnóstico.

O negócio de impacto social – criado em 2018 em parceria com Gian Franco e Rodrigo Hernandes – tem como missão tornar a inteligência artificial acessível para todos por meio de uma plataforma que permite a qualquer pessoa, mesmo sem conhecimento técnico, criar a própria IA para gerar impacto na sua vida e no mundo. A Nindoo está focada em levar o conceito de human-centered para a inteligência artificial.  A meta dos empreendedores é abstrair o aspecto da complexidade e dar o poder ao usuário de criar inteligência artificial focada em expandir as capacidades em resolver problemas reais.

Os empreendedores da Nindoo acreditam que essa tecnologia pode ajudar as pessoas a serem mais criativas

Na saúde, por exemplo, a plataforma de inteligência artificial descentralizada – desenvolvida em parceria com o Instituto Vidas Raras – se propõe a reduzir a dificuldade e a ineficiência no diagnóstico de síndromes raras, melhorando a qualidade de vida e evitando a mortalidade pela grande demora em obter um diagnóstico correto; e mapear as evoluções das doenças para a descoberta de tratamentos e drogas mais eficazes.

O público-alvo do negócio é composto por pessoas ou empresas dispostas a descobrir e resolver questões e automatizar tarefas por meio da plataforma. Entre eles, profissionais das áreas de saúde e educação, alunos, pesquisadores e pacientes. A tecnologia atua com pequenos blocos que vão se juntando; a plataforma organiza esse processo de informação e modula o desenvolvimento da solução. Para um médico, por exemplo, pode ser usada para ajudar a chegar em um diagnóstico por meio da busca semântica em milhares de artigos sobre determinada patologia. Segundo Timmers, a Nindoo interpreta o problema do usuário e acha o melhor modelo possível para resolver a demanda, sem que o usuário precise entender de desenvolvimento de software.

O negócio tem colecionado boas notícias: duplicou o faturamento recentemente, com diversos projetos de pesquisa e desenvolvimento e consultorias; em parceria com a Greenbond – startup focada em conservação ambiental – lançaram uma iniciativa chamada Deep Wild para aplicar inteligência artificial no aspecto de visão computacional, reconhecendo espécies selvagens no Pantanal, Cerrado e Amazônia. Recentemente, assinou uma parceria com a Atmo Educação para transformar a educação por meio da inteligência artificial, colocando o aluno no centro da aprendizagem, adaptando-se ao desenvolvimento do estudante e com o objetivo de criar uma jornada de aprendizagem única.

A despeito do medo que a inteligência artificial causa – substituir o homem, aumentar o desemprego e causar mais sofrimento para as pessoas –, os empreendedores da Nindoo acreditam que essa tecnologia pode ajudar as pessoas a serem mais criativas, desenvolverem potenciais e trazer mais qualidade de vida. Da minha parte, também acredito que os negócios de impacto social de cunho tecnológico estão alinhados à missão de tornar o mundo mais inclusivo, justo e empático.

* Maure Pessanha é empreendedora e diretora-executiva da Artemisia, organização pioneira no fomento e na disseminação de negócios de impacto social no Brasil.