Startup de conteúdo ao vivo, ClapMe mostra caminho de reinvenção

Daniel Fernandes

17 de dezembro de 2018 | 11h02

Ivan Bornes *
Esta é a história do empreendedor, sonhador e jornalista Filipe Callil, 29 anos, casado com Maria (de quem ele foi colega na faculdade de jornalismo), neto de libaneses e um dos fundadores da startup ClapMe, plataforma de vídeos – live e vod – para agências de publicidade e marcas, focada na criação, produção e execução de conteúdo transmitido ao vivo (streaming).
A ClapMe, como nos conta Filipe na entrevista a seguir, surgiu com a ambição de ser a “Netflix dos shows ao vivo”, mas após dificuldades no meio do caminho, em 2016 eles deram uma virada de mesa e se transformaram numa das maiores – senão na maior – empresa no Brasil que atende o mercado publicitário com conteúdo ao vivo.
Instalada na nova sede na Rua Fidalga – na badalada Vila Madalena – a ClapMe já transmitiu ao vivo mais de 2 mil eventos, tem mais de 250 mil usuários e 12 mil artistas cadastrados, além de uma grade de programas de humor, shows e entretenimento com interação ao vivo entre público, artistas e marcas.

Filipe Callil, Diego Yamaguti, Celso Augusto Forster e Felipe Imperio, sócios da ClapMe em espaço em reforma na sede na Vila Madalena. Foto: Giovani Cavalcanti

Como foi sua jornada de aprendizado antes do surgimento da ClapMe?
Cresci numa família de classe média e, desde pequeno, tive que aprender a me virar. Meus pais tiveram muitos momentos de crises financeiras. Tive que ver meu pai quebrar e recomeçar inúmeras vezes ao longo da vida. O meu primeiro “emprego” foi aos 13 anos de idade. Eu cuidava de uma lojinha de roupas e acessórios fitness que meu pai tinha na época dentro de uma academia de São Paulo. No primeiro ano de faculdade, voltei a trabalhar com meu pai em uma confecção. Ele era o gerente comercial da fábrica e eu trabalhava na estamparia.
Ainda no primeiro ano de faculdade, eu consegui arrumar o meu primeiro estágio como jornalista em uma assessoria de comunicação, a X Comunicação. Foi lá que conheci o Celso Augusto Forster, com quem anos depois fundei a ClapMe. Ele era o meu melhor amigo no trabalho, além de um “chefinho” mentor com quem eu tinha liberdade para falar sobre tudo, principalmente sobre rock’n roll. A paixão por música é o que nos uniu logo de cara.
E depois consegui finalmente meu estágio na TV Record – meu sonho era ser repórter de TV. Trabalhei na Record de 2009 a 2013, quando pedi demissão para focar 100% na ClapMe. Sou muito grato a tudo o que pude aprender na Record. Muito do que hoje aplico na minha empresa aprendi lá com os meus colegas de trabalho e ex-chefes.

“Ao escolher que você quer empreender, você irá privar a sua família de algumas escolhas. É uma decisão difícil e, nesse aspecto, muitas vezes egoísta também.”

Você sempre destaca a importância da família e, sobretudo, de sua mulher, Maria, no empreendimento. Como você avalia a importância do apoio familiar no sucesso do empreendedor?
Mais do que uma namorada e amiga, Maria foi a pessoa que, apesar de todas as incertezas, apostou comigo no sonho. Até 2016, ela pagava todas as contas praticamente sozinha. Até hoje ela paga muito mais conta do que eu (risos). Atualmente, a Maria trabalha na área de comunicação de uma grande multinacional. Quando eu contei para os meus pais que iria pedir demissão da Record para me dedicar a um projeto pessoal, eles acharam que eu não estava muito bem da cabeça – até pouco tempo atrás eles ainda achavam isso (risos). Mas sempre respeitaram minha decisão e tentaram me dar o suporte necessário dentro do que podiam. Com a Maria também não foi muito diferente. Mas ela ainda teve que sofrer mais as dores comigo.
Depois que fomos morar juntos, quando a empresa ainda não podia me pagar um pró-labore, era ela quem me dava todos os subsídios para que eu pudesse sobreviver. Desde o dinheiro para ônibus, roupas, comida, viagens etc. Com tudo isso, eu aprendi que empreender é uma decisão que, cedo ou tarde, irá influenciar na vida das pessoas que estão ao seu redor. Ao escolher que você quer empreender, você irá privar a sua família de algumas escolhas. É uma decisão difícil e, nesse aspecto, muitas vezes egoísta também. Mas sou muito grato à Maria por toda paciência e confiança que ela depositou em mim. Sem o apoio dela, com certeza a história teria sido muito pior.
Você estava com emprego bom, num grande grupo de mídia, já se encaminhando para ser repórter de TV. De onde veio essa vontade de empreender, que deixou todo mundo de cabelo em pé?
Eu já devo ter nascido empreendedor. Desde criança eu gostava de inventar coisas, eu preferia construir os meus brinquedos do que brincar com um pronto, compor músicas e fazer “rolos”. O meu primeiro violão foi fruto de um rolo que fiz, aos 11 anos de idade, com um vizinho: eu dei um patins que não me servia mais e ele me deu o violão. Essa era a época em que meus pais estavam mais apertados de dinheiro, então eu construía coisas ou fazias rolos para poder ter as coisas que eu queria.
Um pouco antes dessa época, quando eu tinha uns oito anos de idade, eu montei uma vara de pescar com ímã para pegar as moedas que caíam no ralo que tinha em frente à cantina do colégio. Era um fosso de uns 5 metros de altura. E eu ficava no recreio ou no final da aula pescando as moedas que caíam lá. Enfim, cresci querendo montar coisas, fazer coisas… Tive banda de rock na adolescência. Acredito que tudo isso fez com que a minha veia empreendedora florescesse.
E como surgiu a ClapMe?
Ainda na época da faculdade, eu dizia para os meus amigos de classe – inclusive para Maria – que um dia montaria um negócio. Não tinha ideia exatamente do que seria. Mas dizia que iria montar um negócio no mercado da música. O pessoal me achava meio doido, inclusive Maria. Até tentei arrumar uns sócios na faculdade, mas ninguém levou muito a sério. Quando eu estava no final da faculdade, já estagiando na Record, eu tentei montar a ClapMe com alguns amigos da Record. Não foi muito para a frente e acabei guardando a ideia na cabeça.
No final de 2011, quando estava em Ribeirão Preto prestes a voltar para São Paulo, conheci o Diego Yamaguti da Silva e o Felipe Imperio. Na época, eles estavam encerrando as operações da AdBees, uma plataforma de compras coletivas. Comentei com eles que tinha uma ideia ainda da época da faculdade: um palco virtual para artistas se apresentarem. Eles gostaram da ideia e começaram a me ajudar a tirá-la do papel. Decidimos virar sócios. Pouco tempo depois, ligamos pro Celso e convidamos ele para ser nosso sócio também.

“Para mim, ser empreendedor não é ter um bom diploma. Está mais ligado à personalidade da pessoa e ao modo como enxerga o mundo. Conhecimento qualquer um pode adquirir. Resiliência, não. E, para mim, resiliência é a principal virtude que um empreendedor precisa ter”

Como é o dia a dia da empresa?
Eu tendo a dizer que empreendedor não se constrói. Ou você é ou você não é. Toda empresa precisa ter pelo menos um sócio que seja realmente empreendedor. Tem gente que cria um negócio sem ter a veia empreendedora e, para o projeto evoluir, precisa encontrar um sócio que assuma esse protagonismo empreendedor. No caso da ClapMe, acredito que os quatro sócios tenham essa veia empreendedora. Dependendo do momento ou da situação, um dos quatro assume o protagonismo – e isso é muito bom para dividir o peso e as responsabilidades do negócio.
Na tua opinião, qual a principal característica de um bom empreendedor?
Para mim, ser empreendedor não é ter um bom diploma, conhecimento, bagagem, experiência – apesar de que tudo isso agrega valor e, muito provavelmente, fará com que você economize tempo na sua jornada empreendedora. Para mim, ser empreendedor está mais ligado à personalidade da pessoa e ao modo como enxerga o mundo. Conhecimento qualquer um pode adquirir. Resiliência, não. E, para mim, resiliência é a principal virtude que um empreendedor precisa ter.
Falando particularmente de mim, acho que o meu lado empreendedor nasceu muito antes da ideia – por mais que eu tenha começado a ClapMe sem ter a menor ideia prática ou teórica do que era empreender (risos). Se não tivesse sido a ClapMe, cedo ou tarde, teria sido outro negócio, outra ideia. Até hoje muito dos nossos acertos são com base nos erros que a gente cometeu lá atrás e que ainda cometemos.
Não somos empreendedores acadêmicos ou de “palco” (aqueles que vendem mais livros e palestras do que desenvolvem negócios). Eu e meus sócios somos empreendedores “graxa”, como costumamos dizer. Estamos construindo nossa empresa em cima de cada erro e acerto que cometemos. E isso dá um tesão danado, pois o desafio é constante.

“Investidor gosta disso: empreendedor que não desiste mesmo quando todo mundo já desistiu”

Para o empreendedor, os dias e noites são bem diferentes do normal das pessoas. Como é a tua rotina?
Eu não consigo mais separar trabalho de vida pessoal. Sei que isso pode até ser considerado errado. Mas é o modo como vivo a vida. E acaba tendo bônus e ônus. Ao mesmo tempo em que trabalho praticamente todas as horas/dias em que estou acordado, por outro outro lado tenho a flexibilidade de organizar a minha agenda da forma que melhor me convém. Posso fazer jiu-jítsu na hora do almoço, à tarde, à noite, o horário que quiser. Posso viajar no meio da semana. Posso fazer home-office quando quiser. Se acordo com dor de cabeça, posso cancelar todas as minhas reuniões do dia e dormir – não que alguma vez eu tenha conseguido de fato fazer isso (risos).
No começo era bem difícil. Porque eu não tinha dinheiro para poder fazer coisas com a Maria (jantares, cinema, viagens etc) nem tempo, pois tinha que trabalhar o máximo que aguentasse para mudar a situação. Mas, de fato, esse equilíbrio só vem com o tempo e com dinheiro. Hoje, eu e meus sócios já conseguimos nos organizar melhor para aproveitar também nossas famílias. Por exemplo: eu tenho um acordo com Maria de não usar o celular para trabalhar em viagens de férias. E tenho conseguido respeitar o acordo. Eu vou trabalhar todos os dias de bike elétrica – são 7 km entre Moema, onde moro, e a Vila Madalena, onde fica o escritório. Gosto de aproveitar o trajeto para pensar em novas ideias, observar a movimentação da cidade.
Quais são os planos de futuro para a ClapMe?
Estamos negociando mais um round de investimento – este será o nosso 4º round – para ampliar algumas linhas de negócio. Estamos inseridos dentro de um mercado (mídia/economia criativa) extremamente competitivo e com poucas barreiras de entrada. Então, acaba ganhando quem tem mais velocidade e melhor execução. Vale lembrar que a ClapMe precisou dar uma pivotada em 2016 para sobreviver.
No começo, queríamos ser uma plataforma de assinatura de conteúdos artísticos (peças, shows, etc)… uma espécie de “Netflix de shows ao vivo”. Por várias razões, o modelo acabou não tracionando. Decidimos guardar o modelo numa gaveta imaginária e decidimos ir atrás de onde estava o dinheiro desse mercado.
Acabamos nos tornando uma espécie de plataforma de conteúdos para agências de publicidade e marcas. Só em 2018, nós realizamos mais de 100 projetos com transmissões ao vivo com marcas. Indiscutivelmente, somos hoje a principal empresa que atende o mercado publicitário na criação, na produção e na execução de ativações com transmissão ao vivo.
Mas, há alguns meses, nós decidimos retomar o nosso modelo de negócios “raiz” – a assinatura de conteúdos – e estamos desenhando novas estratégias para conseguir colocar o modelo de pé.

“Dinheiro bom é o dinheiro dos clientes e não o dinheiro de investidor”

Muitos empreendedores que acompanham esta coluna tem curiosidade sobre a captação de investimentos. Como foi para vocês?
O curioso dessa história é que não estávamos buscando investimento quando começamos a negociar com eles. Havíamos acabado de ganhar o InovAtiva Brasil (um programa brasileiro de startups público e privado) e parte da premiação resumia-se a mentorias dessas alumnis de Harvard. Com isso, pudemos ser 100% transparentes com eles, contando sobre nossas dificuldades, falhas… E, depois de alguns meses, a proposta surgiu deles.
Foi um aprendizado muito legal: é muito melhor quando o investidor quer vocês do que o contrário. E de novo bato na tecla da resiliência. Tendo a acreditar que foi a nossa persistência – mesmo frente a diversos fracassos e incertezas – que chamou a atenção deles. Investidor gosta disso: empreendedor que não desiste mesmo quando todo mundo já desistiu.
Quero destacar quem são nossos investidores: Jump Brasil (aceleradora do Porto Digital, Recife), Triple Seven (fundo privado de investimento aqui de São Paulo) e HBS Brasil (Harvard Business School Brasil, comitê formado por alumnis de Harvard que investem em empresas de inovações). O investimento de HBS foi muito produtivo, pois trouxe pra dentro do negócio mais de 20 executivos de alto escalão. Diretores, VPs, Presidentes das maiores corporações globais (ambev, Itaú, IBM, Cielo etc). Só de ter a agenda de pessoas com esse gabarito para tomar um café e falar de negócios, o investimento já se justifica.
Que dicas pode dar aos empreendedores que estão chegando agora?
Vá atrás do dinheiro. Às vezes a ideia pode ser brilhante, escalável, sexy e ultra-inovadora. Mas ela não valerá de nada se você não tiver clientes. Dinheiro bom é o dinheiro dos clientes e não o dinheiro de investidor. Ache um modelo rápido de colocar de pé, mesmo que não seja o mais brilhante, escalável, sexy e ultra-inovador. Mas vai ser o modelo para fazer com que você, no futuro, possa desenvolver o outro modelo mais brilhante, escalável, sexy e ultra-inovador. Eu vi muita startup morrer porque os sócios ficaram insistindo em um modelo que não gerava receita. No começo você até se vira para manter a operação. Mas depois de dois, três anos… fica inviável.
Outra dica: não decida empreender por falta de opção e sim o contrário. Empreender é uma escolha! Tenho visto muitas pessoas que estão montando negócio porque perderam o emprego, por exemplo, e sem alternativa estão montando startups. Isso é ruim para a pessoa e também para o ecossistema. O mercado satura com um monte de startups mal administradas e sem visão de futuro.
Na tua opinião, qual o futuro do Brasil?
Ainda temos muito o que evoluir em relação a empreendedorismo no Brasil. A mudança talvez precise começar nas escolas. Como jornalista posso dizer que não aprendi nada na universidade sobre empreendedorismo. É importante fomentar o assunto nas universidades e gerar debates entre os alunos. Eu gosto muito de contribuir com o mercado de empreendedorismo. Sempre que posso, dou mentorias para novos empreendedores, participo de eventos de setor e afins. Em breve, espero ter condições para me tornar investidor.
Ivan Bornes (ivan@pastificioprimo.com.br) é empreendedor e fundador da rede de rotisserias Pastifício Primo (www.pastificioprimo.com.br)