Startup cria robôs que ajudam na mudança de hábitos, da educação às finanças

Startup cria robôs que ajudam na mudança de hábitos, da educação às finanças

Na empresa Movva, os chamados 'nudgebots' usam inteligência artificial para enviar lembretes focados em construir novos comportamentos nas pessoas, como para prevenir inadimplência

Maure Pessanha

05 de junho de 2019 | 11h41

Quando foi anunciado, em 2017, que o Prêmio Nobel de Economia seria destinado a Richard Thaler – economista norte-americano, considerado um estudioso pioneiro em unir a economia à psicologia –, abriu-se uma brecha para que se discutisse amplamente a chamada “economia comportamental“. Ao contrário do que prega a teoria clássica da economia, as decisões humanas não são totalmente racionais; muitas das nossas escolhas são baseadas em critérios subjetivos e culturais, tornando as decisões de consumo, por exemplo, mais complexas e multifacetadas.

Autor do best-seller Nudge – O Empurrão para a Escolha Certa, Thaler explica no livro por que as pessoas priorizam o consumo no presente em vez de economizar para a aposentadoria: o prazer presente é mais concreto do que o sofrimento no futuro. E como romper com esse comportamento que pode comprometer a saúde financeira? A resposta pode estar nos nudges – definido como gatilhos ou estímulos que ajudam o usuário a tomar decisões que racionalmente o beneficiariam, enquanto preservam sua liberdade de escolha. Essa abordagem, que ficou conhecida como paternalismo libertário, é um mecanismo que dialoga com as necessidades das políticas públicas no Brasil.

É nesse contexto que a Movva atua. O negócio de impacto social utiliza inteligência artificial aplicada à economia comportamental; a partir da análise de dados, cria e envia mensagens para influenciar comportamentos positivos associados ao engajamento educacional, prevenção de inadimplência e formação de hábitos financeiros saudáveis. Com metodologia validada pela Universidade de Zurich e pela Universidade de Stanford, a startup foi fundada em 2012 – com o antigo nome MGov – por Guilherme Lichand, Marcos Lopes e Rafael Vivolo.

Os empreendedores desenvolveram os nudgebots: robozinhos como os chatbots, mas que são focados em mudança de hábito. Na prática, a solução une os nudges – reforços positivos que sugerem comportamentos e incentivam escolhas que promovam a mudança de comportamento – aos bots, que são programas de computador criados para realizar tarefas repetitivas e automatizadas. Os nudgebots atuam em comportamentos que podem ser efetivamente mudados por meio de lembretes e nudges enviados de forma persistente, formando novos hábitos. Por meio de algoritmos que utilizam a inteligência artificial, o sistema manda mensagens para maximizar o impacto positivo na construção de novos comportamentos.

Rafael Vivolo, um dos fundadores da Movva, antiga MGov. Foto: Marco Torelli

Para o engajamento educacional, desenvolveram a solução Eduq+, que envia nudges semanais, via SMS, com conteúdos e atividades incentivando coordenadores, professores e familiares a se engajarem na educação de jovens e crianças. Já o Poupe+, outra solução da empresa, atua na prevenção de inadimplência e formação de hábitos saudáveis focados na vida financeira. A proposta é ajudar o consumidor a se apropriar de conteúdos financeiros que o ajude a tomar decisões conscientes e financeiramente seguras. Os produtos desenvolvidos pela Movva podem ser aplicados, ainda, para reforçar cultura organizacional, saúde, questões sustentáveis e filantrópicas.

Sobre os resultados da empresa, destaco dois. Na avaliação realizada em Stanford com 19 mil usuários, a solução gerou uma diminuição da taxa de repetência em 33%; aumento de 15% na participação escolar; aumento de um quarto de proficiência em matemática; e retorno em relação ao custo investido (ROI) foi de R$ 12,44 por real aplicado. A Movva atua no Brasil – em 1.000 municípios com projetos de melhoria de aprendizagem e redução da inadimplência –, além de Estados Unidos, Costa do Marfim, República Dominicana e Alemanha. Possui 200 mil usuários ativos e já impactou 800 mil pessoas.

Em sete anos de jornada, os empreendedores têm auxiliado organizações do setor público e privado a formar hábitos positivos entre cidadãos e consumidores. Acredito na economia comportamental e na premissa de que com informação de qualidade podemos inspirar boas práticas para que o brasileiro possa fazer melhores escolhas.

* Maure Pessanha é coempreendedora e diretora-executiva da Artemisia, organização pioneira no fomento e na disseminação de negócios de impacto social no Brasil.