Solidariedade faz parte da cultura

Daniel Fernandes

17 de março de 2015 | 06h54


Uma das empresas que acompanho desde sua fundação é o Airbnb. Criada em 2008 no Vale do Silício, a empresa tem como característica forte o espírito de comunidade e confiança, tanto que atua no mercado de locação de acomodações, mas de uma forma diferente das imobiliárias. A proposta é criar uma grande comunidade de pessoas conectadas ao redor do mundo que desejam alugar suas casas ou quartos para outras pessoas que estão em viagem ou que buscam acomodações únicas e diferenciadas, oferecendo uma nova experiência. Durante essas hospedagens, as pessoas de fato passam a pertencer àquele lugar. Já são mais de 25 milhões de hóspedes em 34 mil cidades e 190 países.

Como alguém que gosta de analisar culturas, há diversos pontos desse negócio nos quais eu poderia focar, mas trago hoje um exemplo de algo não central, porém muito leal aos valores da empresa. O Airbnb tem um projeto de auxílio às vítimas de desastres naturais. Pode até parecer desconexo do negócio, mas o representa com muita honestidade: a ideia surgiu da própria comunidade e a empresa teve a sensibilidade de ouvir e observar o que estava acontecendo, e assim desenvolver o projeto.
Tudo começou em 2012, após passagem do furacão Sandy pelo Caribe e costa leste dos Estados Unidos. Uma moradora de Nova York anunciou sua casa de graça no Airbnb para hospedar pessoas que estavam desabrigadas. Rapidamente isso se tornou uma corrente do bem e mais de 1.400 anfitriões estavam fazendo o mesmo – oferecendo às vítimas um teto e apoio sem custo algum. Segundo a empresa, a maneira humilde como os anfitriões estavam agindo foi tocante e essas atitudes ficaram marcadas como um grande conforto em meio ao caos.
Deste então, o Airbnb desenvolve o programa de desastres que incentiva moradores de diversas cidades do mundo a fazerem o mesmo, sem cobrar absolutamente nada. Quando um desastre acontece, o Airbnb ativa a ferramenta de resposta para a área atingida e envia automaticamente um e-mail para todos daquela região, perguntando se podem ajudar. As reservas não sofrem taxas, todos os anfitriões têm suporte 24h por dia e a empresa usa as redes que possui para divulgar informações do que está acontecendo. Eles também fazem parcerias com governos e organizações no sentido de ajudar antes, quando há um desastre natural previsto.
Essas ações de solidariedade, onde as pessoas simplesmente abrem suas casas para quem perdeu tudo e tem o apoio da empresa para disseminar as informações e conectar uns aos outros já ocorreram também em San Diego, em resposta a grandes incêndios; na Sérvia, Bósnia e Croácia, depois das inundações das Balcãs; em Londres, Sardenha e Colorado, após serem gravemente atingidas por inundações; na ilha de Cefalônia, após um terremoto; em Toronto e Atlanta, depois de severas tempestades de gelo e nas Filipinas, depois do Tufão Haiyan.
Esse é um caso interessante de uma empresa baseada na economia do compartilhamento, e que mesmo tendo crescido a nível global em poucos anos mantém firme o seu propósito de impactar positivamente a vida das pessoas através desse compartilhamento. Algumas empresas focam em resultados econômicos imediatos. Porém, em momentos de tragédia, a melhor estratégia pode ser bem diferente do foco financeiro. No caso de hoje, a empresa resolveu usar suas ferramentas para auxiliar o maior número de pessoas que precisam de apoio, a custo zero, ouvindo uma opinião de sua comunidade.
Um aprendizado que tiro desse exemplo é que às vezes existem projetos paralelos, que não percebemos logo de cara, e que podem ter um impacto grande na clareza dos valores de uma empresa, e a longo prazo contribuir para o negócio como um todo. Outro aprendizado é que boas ideias podem vir de todos os lados, até mesmo de um cliente que de repente usa o seu produto com outro propósito. Basta estarmos sempre atentos para reconhecer e agir rapidamente para conseguir executar e escalar uma sugestão inovadora.

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