Sobre o “Camaleão” e os Negócios

Daniel Fernandes

14 de janeiro de 2016 | 06h03


Nestes dias, só se falou de David Bowie, e com toda razão: perdemos um dos artistas mais geniais e provocadores de todos os tempos. O mundo ficou bem mais careta e muito menos divertido.
Os motivos pelos quais Bowie era (e ainda será por muito tempo) tão importante já foram exaustivamente – e com toda razão – desfilados, e não é sobre isso que eu quero escrever.
Também não faltou quem lembrasse da faceta empreendedora do ‘camaleão do rock’, como pioneiro da internet (BowieNet em 1998) e criador de negócios como os Bowie bonds e o BowieBank.com, mas tampouco é sobre isto o meu texto de hoje.
Eu quero é prestar minha reverência a David Bowie como fã, e lembrar um pouco do que ele, como ícone da cultura pop, tem a ensinar a nós, empreendedores, com sua carreira longeva e bem-sucedida.
REINVENTAR-SE
Uma das características marcantes de Bowie que mais me inspira como empresário é a capacidade de se reinventar constantemente. Mesmo sendo um sucesso, mesmo sendo cultuado pelo trabalho que já tinha feito, o camaleão surpreendia a cada temporada com uma nova guinada, ou pelo visual, ou pelo estilo musical, ou pela atitude. Lição genial para marcas e empresas que querem ter uma carreira relevante como a dele: saiba derreter-se e se recriar constantemente, mesmo no auge do sucesso. É a melhor forma de envelhecer e fazer história (e não ficar tocando ‘satisfaction’ por 40 anos).
ABSORVER INFLUÊNCIAS
Bowie era brilhante, mas não auto-suficiente: ele sabia garimpar o que havia de bom ao redor e incorporar à sua música. E se aliava a outros grandes músicos com humildade, sabendo que somar talentos é, na verdade, multiplicá-los. Nas empresas, óbvio, vale a mesma máxima.
EXPERIMENTAR, OUSAR
O ‘homem do espaço’ investiu, como poucos, em caminhos alternativos e exóticos. Seja nos palcos como na vida pessoal, foi sempre transgressivo e provocador, quebrando diversos tabus. Incorporou nos shows androginia, teatro, moda e ópera. Com isso, Bowie ditava tendência e abria o caminho para os outros. É o que fazem as marcas inovadoras, mesmo correndo o risco de que, em algum momento do começo, sejam incompreendidas e depois sejam supercopiadas.

FUGIR DE RÓTULOS
Bowie foi roqueiro, é verdade, mas também transitou pela soul music e até pelo funk, com passagem pelo R&B e pela música eletrônica. E também foi ator, roteirista, ícone da moda, empreendedor, visionário da internet e do mercado financeiro, escritor e até pintor (muito bom, por sinal). O ecletismo foi uma de suas marcas registradas.
ATITUDE É O MELHOR MARKETING
Dono de uma grife musical milionária, Bowie ficou famoso na indústria fonográfica por não gastar fortunas com a divulgação de seu trabalho: sua atitude e seu estilo atraiam a atenção da mídia e do público quase ao natural. Ele também sabia aproveitar-se de pequenas grandes sacadas, como lançar músicas no dia do seu aniversário. E isso voltou a fazer em seu grand finale, ao lançar um álbum inesperado no seu leito de morte, dias antes de morrer. Impacto total, definitivo, de uma obra.
PERSEVERANÇA
Mesmo que a imagem que todos temos de Bowie seja de sucesso, nem tudo o que ele fez foi genial ou deu certo. Muitos dos negócios que ele iniciou quebraram, como o Bowie Bank já citado acima. Alguns discos tiveram vendas insignificantes e foram super criticados, na época do lançamento. Através de sua biografia, sei que passou por momentos de muitas dúvidas artísticas, mas mesmo assim perseverou. E o conjunto da obra afinal se mostra na sua importância e influência. Podemos esperar inspiração maior?
Ivan Primo Bornes – o masseiro fundador do Pastifício Primo tenta ser um pouquinho herói todos os dias

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