Sobre amizades e negócios

Daniel Fernandes

31 de março de 2016 | 09h57

Confesso: eu adoro trabalhar com família e amigos. Considero realmente gratificante estar com pessoas de quem gosto e admiro, com alto potencial e capacidade profissional. E principalmente me encanta o dinamismo e a eficiência que se estabelece nas atividades feitas com a cumplicidade da amizade. Seja numa escalada de montanha, num jogo de futebol, num churrasco ou no trabalho, quando o grupo de pessoas que está junto têm a “química” correta, me parece que tudo fui melhor. Por isso procuro sempre criar este ambiente dentro da empresa – porque sei que dá certo.
Claro que muitos destes amigos surgem através da convivência na empresa. Termina por ser inevitável que o grupo de pessoas que trabalha diariamente juntos desenvolve uma amizade, quando se compartilham valores e objetivos de vida.
Já outros eram amigos desde velhos tempos, ou vizinhos, colegas de estudos, parentes, amigos dos amigos, e de alguma forma terminam por se agregar ao grupo de trabalho, num projeto profissional. E é destes que eu quero falar.
Há inúmeros caminhos para estabelecer uma amizade – por sorte e por esporte, como diz o ditado. Mas é também inevitável que os problemas terminem por abalar algumas amizades, o que pode ser considerado perfeitamente normal.
Sempre me foi falado para evitar trabalhar ou fazer negócios com amigos para não perder a amizade, e certamente casos assim não faltam. Mas no fundo sempre achei isso uma bobagem. As amizades terminam por muitos motivos, independente de trabalho e dos negócios. Ou seja, o trabalho e negócios podem ser apenas mais um motivo de terminar a amizade, assim como tantos outros. Ou, simplesmente revelam uma fragilidade pré-existente na amizade.
É normal que alguns amigos se afastam porque mudam de cidade, ou nascem os filhos e o ritmo de convivência muda, ou começam a levar as rivalidades de futebol (e da política) muito a sério. A amizade – e a intimidade – terminam quando não temos mais pontos de contato, afinidades, sonhos em conjunto.
Da mesma forma termina muitas vezes a amizade de um casal – que trabalha junto, ou não. Ou uma família – que pode ter negócio juntos, ou não. Percebes? Não há como certificar que uma amizade vai ser arruinada – ou não – por trabalhar ou fazer um negócio junto.
Portanto eu acredito – e não me arrependo – de que temos que dar chance aos bons amigos, aos bons profissionais. Se dá errado, o risco pode ser perder uma amizade, é verdade. Mas se dá certo, o resultado será certamente fantástico.
Olha alguns casos grandes de amizades nos negócios:
Hewlett and Packard (HP)
Ben and Jerry (Ben & Jerry sorvetes)
Larry and Sergey (Google)
Bill e Paul (Microsoft)
Lemann, Telles e Sicupira (3G)
A lista de nomes pode ser enorme, e com muitas variações de amizades forjadas em trabalho duro. Certamente você vai se lembrar de mais mais casos de sucesso e outros tantos que não deram certo.
Eu tenho algumas dicas, que sempre procuro seguir (mas é claro que não sou imune a erros):
– Nunca escolha trabalhar ou fazer negócio com um amigo apenas pela diversão, pelo bom papo ou porque é vizinho de casa. Em primeiro lugar está a competência e a qualidade profissional da pessoa. Não se pode confundir gostar de trabalhar com amigos com trabalhar com incompetentes. Nenhuma empresa aguenta isso. Evite favoritismos tendo sempre a meritocracia como regra geral na empresa.
– Respeite os limites pessoais, respeite as fragilidades de cada um, nunca se prevaleça, para ganhar um debate, de argumentos íntimos. Nunca quebre a confiança ao expor um assunto da vida pessoal na frente de outras pessoas.
– Mantenha o profissionalismo, algumas formalidades são necessárias no ambiente de trabalho. O cumprimento de metas e responsabilidades é fundamental. O tempo no trabalho deve ser produtivo. Assuntos pessoais devem ser tratados fora do horário. Mantenha o foco.
– Não tenha medo de errar, não tenha medo de pedir desculpas e, principalmente, não tenha medo de demitir ou encerrar a parceria caso não esteja funcionando.
Portanto, amigos, amigos, negócios a parte.Um amigo não pode esperar um tratamento diferenciado, seja como funcionário, sócio, cliente ou fornecedor. Inclusive a relação pode vir a ser mais formal, para evitar criar confusão. O amigo não pode ter expectativa de ser favorecido apenas por ser amigo. Eu já perdi amigos assim, que não entenderam que não se pode perder o objetivo maior numa relação profissional, que é fazer o negócio dar certo. Entender isso significa maturidade e vai ajudar a preservar a amizade.
Porque amigo que é amigo de verdade sabe que não se deve confundir alhos com bugalhos. O resto é oportunismo, não amizade.
Ivan Primo Bornes – o fundador do Pastificio Primo acredita que com amizade, os negócios são mais divertidos.
 

publicidade

publicidade

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: