Sempre aposte na criatividade dos seus funcionários (porque não é despesa, é investimento)

Daniel Fernandes

28 de outubro de 2016 | 12h58

Quer ter mais retorno com funcionários do seu negócio? Comece com perguntas e não com as suas respostas.
Será que o seu cliente não está utilizando o seu produto de outro jeito ou com outra finalidade? Se isso estiver acontecendo, talvez encontre aí uma grande oportunidade. Muitos irão lembrar-se do ano de 1994 como o início do Plano Real. Mas na Alpargatas esse ano é celebrado como o ano da virada. Até então, a empresa só vendia produtos baratos como o jeans US Top, a chuteira Kichute ou o tênis Bamba ou Conga. Foi quando alguém da empresa notou algo que muita gente fazia. Muitos compravam um par de sandálias Havaianas, tiravam as tiras, viravam o solado para cima e encaixavam as tiras de volta. Assim, a sandália ficava de uma cor só já que a parte branca tradicional ficava em contato com o solo. Além de ficarem diferentes, as sandálias poderiam combinar com a cor da roupa, tornando-se assim, um acessório de moda. Nascia aí as Havaianas Top, com preço de item de moda e não de produto popular.

Será que o produto da sua empresa não está sendo utilizado por alguém que está muito distante do mercado-alvo? Em uma dessas viagens pelo interior do Brasil, um dos funcionários do UOL teve o pneu do carro furado. Parou em uma dessas borracharias de beira de estrada. Na hora de pagar pelo conserto, não tinha dinheiro e o borracheiro não aceitava cartões. Mas, para a sua surpresa, o sujeito de mãos calejadas disse que ele poderia pagar via PagSeguro, mesmo sem saber onde trabalhava o incrédulo cliente, que imaginava que o meio de pagamento da sua empresa só era aceito em sites da internet. Disso veio a ideia da Moderninha, a maquininha de pagamentos off-line que só existia no mundo online.
Que tal experimentar ideias inventivas com seus colegas de trabalho que não custam nada para serem implementadas?  Na Porto Seguro, um dos funcionários sugeriu experimentar tirar os lixos individuais dos colaboradores para incentivar a coleta seletiva já que haveria apenas três lixeiras por andar: Uma para lixo orgânico, outra para lixo reciclável e ainda outra só para papel. Se desse errado, era só devolver as lixeiras. Mas a importância da sustentabilidade prevaleceu e ainda a empresa passou a economizar papel e toner já que os funcionários reduziram drasticamente a necessidade de impressão de documentos.
E se ao invés de pedir ajuda aos universitários, pedir sugestões aos colaboradores? Repintar de azul o botijão de gás sempre tinha sido um desafio para uma das principais empresas do setor. O processo utilizava uma pistola de pintura que sempre gerava sobra de tinta que ficava pairando no ar para depois grudar nas paredes ou piso. Depois de milhares de repinturas, a tinta acumulada já tirava alguns centímetros da sala de pintura. E chama técnico, consultor, pesquisador e até cientista em nanotecnologia aplicada a pinturas para criar um processo ou tinta que só aderisse ao botijão. Foi quando um dos operários pensou em criar paredes e piso com uma fina camada de água escorrendo que depois passava por um filtro Melitta de café sendo depois reutilizada.
Que tal levar seus funcionários para interagirem com seus clientes? Quantas empresas não deixam seus colaboradores restritos aos escritórios? É sempre casa, trabalho e trabalho casa. Muitos só fazem planilha, documentos e apresentações e não sabem o que está acontecendo com os produtos que estão naqueles materiais que preparam em seus computadores. A partir de 2008, a subsidiária brasileira da Kimberly-Clark passou a incentivar que seus funcionários interagissem com seus clientes, não só conversando, mas visitando-os e criando laços de amizade. Dentre as várias ideias dos funcionários que surgiram desta interação, a do papel higiênico compactado é uma das mais comemoradas diante da sua simplicidade. Mesmo parecendo estranho no inicio, o funcionário que deu a ideia percebeu que o cliente final sabia intuitivamente que precisava “desamassar” o rolo que facilmente “voltava” a forma tradicional. O cliente também percebia que era mais fácil comprar o pacote já que ocupava menos espaço. Para empresa, ganho de 18% no transporte e 13% no plástico utilizado na embalagem.
Agindo assim, funcionário não só dá despesa, dor de cabeça e problema. Dá lucro, retorno e crescimento quando é criativo.
Marcelo Nakagawa é Professor de Empreendedorismo e Inovação do Insper e Diretor de Empreendedorismo da FIAP.

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