Se não houver espaço para o erro, não haverá espaço para a inovação

Daniel Fernandes

15 de setembro de 2017 | 09h10

O CEO de uma grande empresa na qual presto consultoria reuniu centenas de colaboradores e explicou que para inovar para a empresa, eles poderiam cometer erros. Ninguém entendeu muito bem o que aquilo significava já que, erros, tradicionalmente, sempre são punidos nas organizações. Mas só nas organizações míopes. Nas visionárias, o erro, desde que cometido na tentativa de melhorar, não é apenas tolerado, mas até incentivado. David Packard, cofundador da HP, costumava dizer que se você não está errando, provavelmente não está inovando. E esta reflexão precisa acender uma lâmpada na cabeça das pessoas e organizações que querem, verdadeiramente, inovar.

Mostre-me uma pessoa que nunca cometeu um erro, e eu mostrarei a você uma pessoa que nunca fez nada de relevante na vida.”- explicava William Rosenberg, fundador da Dunkin’ Donuts.
Por esta razão tão óbvia, empresas realmente comprometidas com a inovação, encaram o erro e fracasso como parte do processo do aprendizado organizacional. O Google permite que seus colaboradores utilizem parte do tempo de trabalho em projetos pessoais e incentiva objetivos ambiciosos para que, mesmo não atingindo 100% do resultado, sejam valorizados pela bravura em buscar algo realmente visionário.
Mas nas empresas tradicionais, o funcionário ainda teme fracassar e ser desligado da companhia por isso. E estão certos! São empregados para exercer uma função como qualquer outro ativo da organização que busca a eficiência, e se não entregar os resultados esperados, são descartados na escuridão das incertezas.
Mas há muito tempo, em diversos segmentos, ser eficiente já não é mais uma vantagem competitiva tanto para o empregado como para a empresa. Agora, empresas estão sendo pressionadas a inovar. E a inovação pressupõe espaço para os bons erros e fracassos.
Mas esta valorização do bom fracasso não é nova. “Não tenha medo de errar. Mas certifique de não cometer o mesmo erro duas vezes.” Esta era a recomendação de Akio Morita, co-fundador da Sony para todos na sua empresa. Ele gostava que todos falassem abertamente sobre seus fracassos para que apenas erros novos fossem cometidos. “Em todo o tempo que estive na empresa, eu consigo lembrar de pouquíssimas pessoas que eu gostaria de ter demitido pelos erros cometidos.” – recorda em sua biografia. “Falhas e erros de cálculo são humanos e algo normal, e analisando no longo prazo, isto não prejudicou a empresa. Mas se uma pessoa que cometer um erro é condenada e desprestigiada, ela poderá perder sua motivação pelo resto da sua passagem pela empresa, privando a companhia de qualquer coisa construtiva que poderia oferecer. Se a causa do erro for esclarecida e divulgada, a pessoa não esquecerá e outros não cometerão a mesma falha. Por isso, eu digo ao nosso pessoal: Vá em frente e faça o que acha que é correto. Se errar, aprenderá com isso”.
Assim, se estiver atuando em uma organização que diz que quer inovar, mas percebe que não há incentivos ou mesmo tolerância aos fracassos, continue não cometendo erros e manterá o seu emprego até alguém mais inovador apagar a luz.
Porém, se há espaço para bons erros para quem busca verdadeiramente inovar, paradoxalmente, nunca irá fracassar: “Eu nunca fracassei. Só descobri dez mil alternativas que não funcionaram…” – dizia o maior inovador de todos os tempos, Thomas Edison, o responsável pela tal lâmpada que ilumina os caminhos da inovação.
Marcelo Nakagawa é Professor de Inovação e Empreendedorismo do Insper

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