Robô virtual gratuito ajuda a diminuir aglomeração em bancos de sangue

Robô virtual gratuito ajuda a diminuir aglomeração em bancos de sangue

Startup SaveLivez usa ciência de dados para medir probabilidade de pessoa estar com covid-19 e se está apta a doar sangue; estudo mostra que adaptação em tempos de crise é tendência em 40% das startups

Maure Pessanha

12 de agosto de 2020 | 10h09

Um estudo conduzido pelo comitê global de startups do World Business Angels Investment Forum – voltado a apurar o momento do ecossistema de empreendedorismo em 81 países – apontou os desafios dos empreendedores frente à pandemia do novo coronavírus, revelando que os principais são a luta para captar recursos; os problemas decorrentes da queda na demanda pelos produtos e serviços; e os cortes de profissionais.

O contexto deixou clara a necessidade de digitalização das operações – constatação que impactou, em alguns casos, no modelo de negócio, provocando uma redefinição. A captação de recursos e finanças é, para 37,9% dos empreendedores entrevistados, uma das principais áreas afetadas pela crise provocada pela covid-19. Na prática, sem a ingestão de capital no negócio, 56,74% reportaram que a empresa sobreviveria entre três e seis meses.

Os cortes nas despesas e as demissões foram a base do plano de contingência de 27,09%; para 22,17%, a solução veio da busca por novos investidores mediante participação no negócio, enquanto 19,21% recorreram a financiamentos. Uma parcela expressiva de 36,14% afirmou que foi necessário alternar o modelo de negócio (produtos e serviços) comercializado.

O impacto da pandemia na diminuição do valuation das startups – estimativa de quanto vale a empresa – foi registrado por 39,9% dos empreendedores; 21,67% viram um aumento na avaliação de mercado; e 27,09% não conseguem, no momento, determinar quanto vale o negócio. Entre os entrevistados que estavam em fase de negociação com venture capital, 39,41% reportaram que houve um declínio nas conversas.

O estudo traz, ainda, tendências para o pós-pandemia. Para 40,16% é provável que o negócio será “pivotado” (do inglês ‘to pivot’, que significa girar). Em outras palavras, que dará uma guinada rumo a ajustes para superar os desafios trazidos pela pandemia.

Aliás, a capacidade de se reinventar está no DNA do empreendedor brasileiro. Entre os de impacto social, então, essa é uma constante; uma condição sine qua non. Esse é o caso da SaveLivez – healthtech fundada em 2018 por Rafael Yassushi. Com o objetivo de diminuir aglomerações em bancos de sangue, a empresa está disponibilizando, gratuitamente para unidades públicas, a Livia.bot, uma assistente virtual de saúde.

Assistente virtual já é usada em sites de bancos de sangue, como o Pró-Sangue. Foto: Felipe Rau/Estadão

Esse robô inteligente, em um aplicativo, usa a ciência de dados para evitar contaminações dentro dos ambientes, contribuindo para maior segurança. O chatbot permite saber se a pessoa tem probabilidade de estar infectada com a covid-19; se está apta a doar sangue; e encontrar um local de doação mais próximo à residência dela. É possível saber os horários de funcionamento e agendar.

Lançado em janeiro de 2020, o serviço teve as funcionalidades alteradas para atender às demandas específicas geradas pelo coronavírus, ou seja, o empreendedor redesenhou o negócio e a solução para responder ao momento atual. Algumas das adaptações foram conduzidas no tempo recorde de cinco dias. A solução está sendo utilizada em sites de bancos de sangue, incluindo o Pró-Sangue – o maior da América Latina – e o Hemocentro de Ribeirão Preto, interior de São Paulo. No total, já foram atendidas mais de 70 unidades de doação.

No caso de empresas, a assistente virtual é igualmente útil e eficaz, sobretudo na tarefa de mitigar riscos que podem paralisar a operação e colocar em risco a imagem das companhias e a saúde dos colaboradores; a solução também auxilia na redução dos custos com exames desnecessários. De acordo com uma portaria do governo federal, as empresas são obrigadas e responsabilizadas por lei a assumir a prevenção, sob risco de sofrerem punições trabalhistas.

Com a Livia.bot – em um aplicativo personalizado para a empresa –, os colaboradores podem passar por um check-in no qual a pessoa responde a uma triagem automática, que verifica o risco de contaminação e autoriza ou não a entrada dela no local de trabalho. Do outro lado, os médicos e gestores da empresa conseguem gerir o risco com base em dados atualizados em tempo real e identificam, de forma mais assertiva, quem contatar, quais exames aplicar, ou mesmo rastrear com quem essa pessoa teve contato nos últimos dias.

Rafael Yassushi, fundador da SaveLivez. Foto: Marco Torelli

Em uma visão de futuro, o empreendedor defende que a Livia.bot pode ajudar muitos setores da saúde como, por exemplo, agendamento de vacinação – serviço que evitará aglomerações de idosos e grupos de risco. Pode auxiliar, também, na agenda de consultas do Sistema Único de Saúde (SUS), enviando lembretes aos pacientes, para reduzir as ausências.

Com o uso de ciência de dados para salvar vidas, em hospitais e empresas, a SaveLivez desenvolveu uma solução tecnológica que pode ser personalizada sob demanda para diferentes realidades corporativas e hospitalares. A gestão de risco com base em dados tem um importante impacto social e mostra o enorme potencial das healthtech brasileiras.

Pensando no gerenciamento de dados para impacto social, um outro exemplo é o da Social Good Brasil – organização parceira da Fundação das Nações Unidas, precursora no incentivo do uso de tecnologias, dados e competências do futuro para o bem comum e impacto socioambiental positivo.

No contexto da pandemia, a ONG criou a Sala de Situação Digital Data for Good, que reúne produtos de dados e soluções abertas à sociedade. Nesse espaço on-line, o usuário encontra informações sobre como utilizar, interagir e analisar essas informações e evidências em prol de iniciativas que possam dar suporte ao combate ao avanço da covid-19. Convido todos os leitores e todas as leitoras a acessar o site!

* Maure Pessanha é empreendedora e diretora-executiva da Artemisia, organização pioneira no fomento e na disseminação de negócios de impacto social no Brasil.

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