Receita para tempos difíceis: foco no caminho, não no resultado

Daniel Fernandes

03 de outubro de 2016 | 10h37

Um jovem empreendedor, iniciando nos negócios, me escreveu perguntando como fazer para manter o ânimo e a motivação no meio das dificuldades do dia a dia. De fato, todos já sabem, não é tarefa fácil ser empreendedor, e que todos os dias é necessário juntar forças para remar contra a correnteza. Matar um leão por hora é a norma, ainda mais no meio da crise que vivemos.
Obviamente que ajuda – e muito – uma família unida, bons colegas de trabalho e um ambiente de amigos que compartilhem os mesmos valores de vida. Um ajuda o outro, um serve de apoio e de inspiração ao outro.
Mas, cá pra nós, é bem raro a combinação de família + equipe + amigos acontecer quando se é jovem.

O normal, quando se começa nos negócios, é se sentir sozinho. E assim também é fácil ser vítima da falta de motivação, e perder o ânimo diante das muitas dificuldades que podem fazer o iniciante acreditar que “não vai dar certo” ou “não nasci pra isso”.
Uma vantagem imediata do rapaz que me escreveu é a sensibilidade de perceber esses mecanismos de estímulo funcionando, tentar entender o que está acontecendo, e procurar ajuda. Isso demonstra uma vontade de aprender sobre si mesmo que é característica do bom empreendedor. Palmas!
Então, como manter a motivação?  A resposta pode estar no estudo científico de duas pesquisadoras, Ayelet Fishbach e Jinhee Choi, publicado em 2012.
A pesquisa comprova que a motivação é muito mais intensa quando estamos focados na experiência imediata em vez do resultado final. Ou seja, o velho ditado de que a felicidade não está no destino, e sim no caminho.
Para provar a ideia, realizaram experimentos na academia de ginástica da universidade. Recrutaram 100 alunos e os dividiram em dois grupos. O primeiro grupo foi solicitado de focar nos resultados esperados dos exercícios, por exemplo, emagrecer. Já o segundo grupo foi solicitado a focar na experiência do exercício, por exemplo, alongar o melhor possível.
Os resultados da pesquisa foram consistentes e se destacaram na comunidade de cientistas de comportamento humano: os alunos focados na experiência dedicaram de forma espontânea muito mais tempo à atividade física, com uma média de 43 minutos, versus uma média de 34 minutos do grupo focado em resultados.
Nas entrevistas posteriores, outra constatação: os alunos do grupo focado na vivência do exercício tiveram um alto índice de satisfação após a atividade. Já o grupo focado nos resultados se sentiu frustrado e descreveu os exercícios como um fardo.
Portanto, o grupo que se dedicou ao processo, à viagem, a curtir o dia a dia, além de performar melhor, ainda ficou mais satisfeito.
As pesquisadoras ainda testaram a ideia com outros dois estudos complementares: fazer origami e usar o fio dental. E os resultados se repetiram. As pessoas que encontram os meios para fazer da atividade rotineira uma experiência agradável, perseveram muito mais e terminam por alcançar os objetivos mais consistentemente.
Eu achei bastante semelhanças com um dilema clássico da psicologia do comportamento, que fala de motivação intrínseca versus extrínseca.
Não há dúvidas de que o assunto é interminável. Mas é fato que podemos usar destas ferramentas simples para superar um momento de dificuldade e perseverar. Atletas de alta performance, por exemplo, sabem disso desde o início que o trabalho é de longo prazo. E praticam por anos e anos. Isso não significa não ter objetivos. Os objetivos são construídos de acordo com a prática diária e a confiança de onde se pode chegar. Portanto, foco no dia a dia, e de vez em quando, levantar os olhos para ver o objetivo maior lá na frente, só pra conferir se estamos indo na direção certa. E mão na massa.
Ivan Primo Bornes – o fundador do Pastificio Primo escreve toda semana no Blog do Empreendedor. Quer fazer uma pergunta ou comentário? Receber uma dica? Escreva para ivan.primo@pastificioprimo.com.br

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