Rebel Rebel

Daniel Fernandes

30 de junho de 2016 | 12h57

Passando uns dias em Nova York para participar da Summer Fancy Food – considerada a maior feira da gastronomia e tendências de alimentos do mundo -, tirei um tempo para um programa que me era sempre obrigatório na maior metrópole do mundo: visitar a loja de vinis usados Rebel Rebel, na Bleecker St. esquina com a Bank St., no West Village, ao sul de Manhattan.
E eis que, para minha surpresa, me deparo com uma singela placa na porta, comunicando o fechamento da loja, apenas três dias antes.

Confesso que fiquei chocado, e por um bom tempo permaneci por ali, dando voltas para cima e para baixo, com aquela cara de meme do John Travolta, tentando olhar por entre os jornais que tapam a vitrine. E encontrei solidariedade em outros dois desavisados que, assim como eu, não sabiam da notícia, e ficamos de conversa na calçada, lamentando e lembrando algumas histórias vividas na loja.
Dei um Google e descobri que o motivo oficial do fechamento, após 28 anos de funcionamento, foi o aumento do aluguel, porque a região está cada vez mais visada por marcas de roupa descoladas. Parece que o aluguel de US$ 16 mil foi para US$ 42 mil por mês, e a loja ao lado – de roupa descolada – já está de olho no lugar.
Mas fiquei pensando também em outros elementos para a Rebel Rebel não conseguir sobreviver, mesmo aceitando pagar o aumento de aluguel ou migrando para outro endereço.
Por exemplo, o atendimento do dono, David Shebiro – e de sua pequena equipe – sempre foi, no mínimo, pouco amigável e muito elitista. Só depois de algumas visitas e de fazer várias compras é que se estabelecia uma relação minimamente cordial e, aí sim, era como estar no Nirvana VIP da loja, recebendo alguma atenção.
Os novos clientes, que ainda não tinham passado por este caminho de pedras, ficavam às moscas, certamente desejando um dia também fazer alguma pergunta e ser atendido com educação. Mas eu achava divertido, e que tudo fazia parte desse encanto que a loja tinha, quase que um ritual, uma conquista sair de lá com um disco. Um reduto de pessoas verdadeiras, geniosas e pitorescas – tudo bastante bagunçado, diga-se de passagem.
Mas agora que a loja fechou, é obrigatório pensar o quanto esta atitude “não tô nem ai” não foi decisiva para o que aconteceu. Tipo, agora não adianta o David lamentar, devia ter pensado nisso antes. Imagino que com todas as ferramentas novas da internet, e com a facilidade de pessoas de todo o mundo terem acesso a arquivos de músicas raras sem custo, muitos clientes deixaram de ir. E isso somado ao fato de que o atendimento era essa “preciosidade”, não fizeram uma previsão correta da futuro do negócio.
É interessante pensar que, no revival do vinil que o mundo está vivendo, uma loja como esta, com um super estoque de raridades – e uma marca reconhecida – tenha que fechar, justamente quando deveria estar ganhando mais dinheiro. Imagino facilmente agora o David, xingando a todos e, inconformado, culpando o selvagem mercado imobiliário, em vez de olhar o quanto a loja perdeu a sintonia com os novos tempos, qual dinossauro. E quando digo isso não me refiro ao fato da Rebel Rebel trabalhar com um produto que foi atropelado pela tecnologia, mas sim porque desafinou em uma exigência elementar do mercado desses tempos de hoje, que é a qualidade no atendimento e a sintonia com o cliente.
O nome da loja Rebel Rebel é uma homenagem explicita à música do David Bowie que, como prenúncio destes tristes tempos, faleceu há alguns meses.
E sim, fica a lição, nem os rebeldes podem se dar ao luxo de ignorar a gentileza se quiserem sobreviver nos negócios.
Ivan Primo Bornes – o fundador e masseiro do Pastifício Primo escreve toda semana no Blog do Empreendedor.

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