Quero ser um empreendedor, não John Malkovich

Daniel Fernandes

11 de agosto de 2016 | 13h23

Algumas pessoas acreditam que se nasce um empreendedor, como se tudo dependesse de ganhar algum tipo de loteria genética, que faz você ser melhor ou mais esperto do que o outro.
Mas eu me nego a aceitar que o DNA seja determinante, pois seria renunciar à liberdade de escolha e à capacidade humana de determinar o próprio destino. E – tirando algumas exceções – eu acho que o empreendedor se forma com muito trabalho duro e aprendizado. A clássica formula de 99% transpiração e 1% de inspiração continua muito válida para mim.

Então, a não ser que você queira ficar esperando uma eventual sorte genética numa próxima encarnação, penso ser importante manter o foco no “sonho grande”, e começar a trabalhar nisso o quanto antes.
E, para os que desejam enfrentar este desafio de empreender e prosperar, existem muitas ferramentas de comportamento interessantes que ajudam a melhorar a eficiência pessoal para atingir objetivos. No inglês se usa a palavra “mindset”. É como uma filosofia, ou uma forma de ver as coisas sob um ponto de vista, uma linha de raciocínio.
E eu acredito que cada um pode – e deve – desenvolver o seu próprio “mindset”. Mas, atenção: a jornada é longa. É preciso ser paciente e persistente. Se o “mindset” for superficial, emprestado de algum livro, ou copiado de um vizinho, não passará pelo teste de stress. A experiência deve ser vivida, tatuada, praticada, gravada no subconsciente.
Tudo começa na construção de hábitos, na constância, nada de novo portanto, todos clássicos já testados e comprovados por mil depoimentos e exemplos de vida, biografias, profetas e sábios de todo tipo.
Eu tenho uma listinha resumida desta sabedoria, pessoalmente coletada aqui e ali, ao longo de muitos anos, que vez por outra releio para me manter no caminho. É minha caixinha de ferramentas, que compartilho com você. Adoraria saber qual é seu “mindset” também. Me escreva.
1.Manter o pensamento nas soluções – e não nos problemas. Em resumo, não adianta ficar lamentando o que poderia ter sido feito, que fulano te deixou na mão, que a culpa foi de algum outro e não sua, e tantos lamentos. Depois de passar o momento de choro – normal, por sinal – procure focar no que deve ser feito para sair da situação. Todos já lemos e ouvimos mil vezes esta frase, certo? É a pura verdade.
2.Acreditar nas suas capacidades, e conhecer suas limitações. Parece uma combinação meio maluca, mas encarar a realidade de frente, por mais que doa, é o caminho mais curto para obter o verdadeiro resultado. Também é chamado de maturidade. Terapia ajuda – e muito.
3.Lidar com o risco. Isso não significa jogar tudo o que você tem na roleta, ok? Tampouco significa que você seja forçado a gostar do risco. Mas, se quiser prosperar, em algum momento é preciso começar a arriscar. Quanto antes se começa, antes se aprende, precisa treinar como um músculo. Começar com pequenos testes, observar o resultado, aprender, e assim ir ganhando confiança nas habilidades e também reconhecer onde precisa de ajuda, as tais limitações faladas na dica 2.
4.Estar aberto a erros. O erro é inerente a todos, inevitável. Não conheço forma de arriscar – e ganhar – sem errar. E admitir os erros o quanto antes permite aprender e avançar mais rápido. Confesso que é uma das coisas mais difíceis de aceitar. Nem todo dia se consegue, é normal, mas com honestidade e um pouco de dica 2: maturidade, fica mais fácil com o passar dos anos. E então se lembre da dica 1: manter o pensamento nas soluções. E depois passe pra dica 3: arrisque de novo, e cada vez melhor.
5.Investir tempo – e dinheiro – em conhecimento. Esta é a parte mais divertida para mim. Por exemplo, eu gosto de observar pessoas fazendo trabalhos excelentes, especialmente artesãos. Aprecio a perfeição, a cultura, a tradição, os detalhes. Muitos insights surgem exatamente nestes momentos de liberdade mental. Conhecimento não é apenas uma faculdade: também significa viajar, visitar museus, falar com pessoas interessantes, participar de debates, conhecer outras culturas. Acredito que assim, além da vida ser mais divertida, também é possível ter uma vantagem qualitativa sobre concorrentes. Criar mais e melhor. Conhecimento é um valor raro no mundo de hoje.
6.Disciplina, horários e rotinas. São ferramentas que ajudam na produtividade. Pessoas como eu, com déficit de atenção e altamente dispersivas, precisam destas rotinas para manter o foco. Invejo quem tem isso naturalmente – e tenho amigos que são assim – mas para mim é um esforço diário e racional. E adoro meu moleskine, já devo ter mais de 30 preenchidos com minhas tarefas diárias. E hoje em dia não faltam apps de celular e programas para ajudar a manter a agenda em dia.
7.Qualidade de vida é muito mais importante que acumular bens materiais. Manter as aparências dá muito trabalho, um desgaste inútil de energia. O mais razoável é viver de forma simples, não perder tempo tentando ser o que não se é. Foco na sua vida, deixa a vida dos outros para lá. Não esquecer de manter uma rotina de exercícios, cuidar da saúde. Mens sana in corpore sano, e vice-versa.
8.Escolher uma atividade profissional com base a suas paixões e fortalezas. Acredito que, para o empreendedor, isso vai acontecendo naturalmente quando se alcança uma certa maturidade, autoconhecimento e confiança, como já dito acima. Tente fazer as coisas que ama, fazer o melhor possível, e muito trabalho duro. O resultado é promissor. Tudo isso é bem distante dos livros de autoajuda que querem fazer você perfeito e rico em 3 semanas. É uma jornada de uma vida inteira. Portanto, desfrute a viagem!
Ivan Primo Bornes – o fundador e masseiro do Pastifício Primo escreve toda semana no Blog do Empreendedor.

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