Quer ter filhos mais inteligentes? Leia para eles

Daniel Fernandes

13 de janeiro de 2017 | 12h11

Stella tem quatro anos, mas ainda adora seu livrinho de opostos. Na verdade, ela já decorou há muito tempo todas as páginas que mostra palavras e desenhos de claro e escuro, dentro e fora, alto e baixo, dia e noite, um e vários, entre alguns exemplos de opostos. Ela deve ter mais de cem livros, gosta de vários, mas quase todas as noites pede para que eu leia o livro dos opostos.
Ela e eu sabemos que o que queremos mesmos é brincar. O livro é só um pretexto para apagar a luz do quarto quando estamos na página de escuro e ligá-la quando passamos para a página do claro. É a oportunidade dela sair do seu quarto quando estamos na página do fora, e voltar, quando vamos para a página do dentro. E depois ela sobe no meu pescoço e vamos investigar o que há nas prateleiras de cima do seu guarda-roupa quando estamos na página alto, e, de repente, vai para um voo rasante ao chão para olhar embaixo da cama quando a página fala do baixo.

De todas as páginas, a que mais gosta é a da noite em que há uma lua impressa na página. E o momento em que deixamos o quarto e vamos para a sacada do apartamento ver como e onde está a lua naquela noite. Olhando o céu escuro, lembro-a que Stella é estrela. Nossa estrela. Minha esposa fica brava dizendo que era para ter escolhido um livro com uma estorinha calma para ela dormir e não para acendê-la ainda mais. Mas ela só faz de conta que fica brava, pois a bronca já é dada há mais de dois anos, quando a Stella ganhou este livro.
Em casa, sempre tivemos muitos livros e eles estão espalhados por quase todos os cômodos. Assim, a extensão desse gosto para as nossas filhas foi algo natural. As duas têm estantes absolutamente abarrotadas de livros e já decoraram todas as estórias. A vantagem é que adoram relê-los.
O que não sabíamos é que a Academia de Pediatria dos Estados Unidos criou uma política em 2014 orientando todos os pediatras do país a e explicar e sempre reforçar a importância dos pais lerem para os seus filhos desde bebês. Esse movimento foi replicado no Brasil pela Sociedade Brasileira de Pediatria, que reforçou que os pediatras deveriam comunicar os grandes benefícios da leitura de livros infantis para bebês e crianças.
Diversas pesquisas conduzidas ao redor do mundo indicam que a leitura para crianças, em especial no período de zero a 6 anos tem impactos profundos no desenvolvimento pessoal, em especial na linguagem, aprendizagem e habilidades sócio-emocionais. A presença dos livros infantis nesse momento da vida é vital porque há uma intensa formação de sinapses nos cérebros das crianças.
Essa contribuição pode ser obtida tanto por livros digitais como os tradicionais em papel apontam alguns estudos. Mas as obras em papel são ainda mais benéficas porque criam um momento único entre a criança e seus pais já que é possível modificar diversos aspectos do livro permitindo muitas situações criativas e, por isso, as crianças passam a associar a leitura a um momento especial com seus pais. Isso cria uma aproximação e carinho que nenhum tablet ou aplicativo substitui. Depois, com o tempo, tornam-se mais curiosas e muito mais interessadas pela leitura. Por fim, tornam-se adultos mais bem informados e inteligentes.
Esse contexto tem criado diversas oportunidades para empreender em livros infantis. É um mercado que já responde por mais de 25% de todos os livros vendidos no Brasil e que cresce, apesar da crise. A Taba, Booxs e Leiturinha são algumas das startups que atuam nos serviços de assinatura de livros infantis. Além disso, em diversas cidades brasileiras, novas livrarias e espaços infantis especializadas em livros para crianças estão sendo abertas, inclusive por meio de franquias, como é o caso da ZasTras ou anexas às megastores como Livraria Saraiva, Livraria da Vila e Cultura. Novos selos voltados para público infantil estão sendo lançados e se juntam a vários outros pioneiros como a Companhia das Letrinhas, Salamandra ou mesmo Ciranda Cultural e Girassol.
Entre as novas editoras, destaque para a Vooinho, fundada pela Cláudia Mussi, consegue sintetizar o verdadeiro papel de um livro infantil, que não é tornar uma criança mais ou menos inteligente, mas “enquanto houver livros para sonhar, liberdade para criar e amor para acolher, haverá nas crianças o olhar para um mundo melhor.” – diz.
Marcelo Nakagawa é pai da Helen e da Stella e Professor de Empreendedorismo e Inovação do Insper.

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