Quer ser bom empreendedor? Tenha uma Anita (não a cantora) dentro de você e coma mais cebolas

Daniel Fernandes

22 de janeiro de 2014 | 05h39

Por Leo Spigariol, fundador da empresa De Cabrón
Faz pouco mais de três anos que sou obrigado a me desconectar e pensar sobre mim. Desde que comecei o novo projeto DE CABRÓN, com a fábrica e meu casamento em Santa Cruz do Rio Pardo, mudei-me da capital para o interior sem medo de ser feliz.
Além de poder ver o horizonte verde fundir-se ao azul do céu, ganhei 8 horas de terapia comigo mesmo, em silêncio, dirigindo daqui pra lá e vice-versa. E de lá pra cá, quando tenho que ir e voltar de São Paulo.
Na semana passada, ouvia no rádio uma entrevista em que um excelente psicoterapeuta – e de quem, por sinal, sou fã – falava sobre estarmos na “era do outro eu”. Em seu consultório, uma grande quantidade de pacientes sofre de um problema comportamental de querer ser outra pessoa. E isso os afeta profundamente em sua própria identificação como indivíduo.
Ser amigo de todos, seguido por todos e amado por todos virou quase que um mantra pós-internet. Como é possível ser amigo de todos e agradar a todos? As pessoas adotam uma postura de, muitas vezes, se anularem – e isso inclui abdicar de seus sonhos e princípios – em busca de aceitação coletiva.
Comportamento que acaba se refletindo no comportamento das empresas – pois empresas são resultado do que as pessoas pensam. Quem são seus clientes? Todo mundo?
Para mim, foi como passar um filme diante de meus olhos, enquanto escutava o programa. Lembro-me de várias situações em que participei de reuniões nas quais gestores, ou até mesmo o próprio dono, usavam referências de outras instituições para expressarem uma necessidade ou até mesmo solicitarem um projeto.
Pesquisar concorrentes, entender metodologias e estratégias de outros mercados são preceitos fundamentais. Benchmark é pra lá de necessário! Mas trabalhar a própria essência, enquanto marca ou produto, é vital. A identificação do consumidor com sua marca é feita a partir de algo que somente você pode oferecer ou manifesta. Pode ser a forma de pensar, escrever, entregar, defender, ou tudo isso junto.
No entanto, precisa ser seu, do seu jeito, autêntico. Lembro-me que, quando conheci, em 1999, a história de Anita Roddick, fundadora da rede inglesa The Body Shop, fiquei apaixonado pela sua forma de criar um negócio com princípios claros e bem autênticos. Para ela, defender questões sociais e políticas eram tão importantes quanto entregar um ótimo produto. Tal visão de negócio torna praticamente inviável, se não for impossível, agradar a todos.
Mas certamente fideliza um público muito maior. Outro exemplo é o último post do professor Marcelo Nakagawa, contando um pouco sobre a história do fundador da Patagonia, que também sempre esteve à frente de seu tempo e buscou as coisas que acreditava, mesmo que pudessem parecer loucura.
Quando iniciamos o processo de criação da DE CABRÓN, a busca da essência de cada um de nós, sócios, foi fundamental. Representar no produto os valores que acreditamos foi uma longa imersão e não foi tarefa simples.
Levamos quase um ano para materializar o que queríamos, nos mínimos detalhes. Perdi a conta de pessoas que achavam que éramos loucos, alegando que molho de pimenta não era um bom negócio. Aliás, outro dia, conversando com um rapaz simples, ele me disse: “Qualquer coisa pode ser um bom negócio ou um mal negócio. Você já viu alguém ganhar dinheiro com cebola? Então, tenho um tio que ganha muito dinheiro plantando a bendita. Só que ele faz a coisa direitinho.”
Então cuide-se. Tenha tempo para você refletir e lembre-se do quanto é importante ter uma Anita dentro de você. E coma mais cebolas.

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