Quer aprender sobre a vida? Seja taxista

Daniel Fernandes

17 de dezembro de 2014 | 06h57

Leo Spigariol escreve toda quarta-feira
Recentemente fui à São Paulo e aconteceu algo que me chamou a atenção. Voltando do restaurante Sal, do Henrique Fogaça, pedi um táxi por meio do aplicativo de celular. Não preciso nem dizer que esse treco foi uma das melhores invenções nos últimos tempos. Ou preciso?
O que me chamou a atenção foi o motorista do táxi, um rapaz de 24 anos. É bom sempre puxar papo com taxista porque, no mínimo, você vai ouvir boas histórias. E dessa vez não foi diferente. Começou a trabalhar no ofício aos 20 anos para pagar o curso técnico de protético. Isso mesmo, protético.
Assim que terminou o curso, resolveu se dedicar à profissão. Morando com os pais, juntou dinheiro e comprou um carro… para voltar a vida de taxista. Fiquei surpreso e questionei o porquê disso. Ao que, prontamente, respondeu: “Como taxista, ganho quase três vezes mais do que como protético. Mas tem um porém, levanto todos os dias às 5h30 e só vou parar lá pelas 20h. Mas quero voltar para área para a qual me formei, pois gosto da saúde. Agora vou me formar em odontologia.”
Nesse meio tempo, entre uma história e outra, o jovem motorista me ofereceu bala, água e revistas, enquanto fazíamos o trajeto. “Mas, na época que me formei como protético, a faculdade custava o dobro do que custa hoje. Além disso, o curso era de cinco anos; agora são quarto. Além disso, elimino na grade praticamente seis meses das matérias que fiz quando protético.”
Parece besteira, mas uma simples viagem de 8 km me serviu para elucidar muita coisa. Dentre elas, acho de extrema importância termos a consciência e exercitar diariamente duas posturas:
1. Em determinados momentos de nossas vidas, é necessário voltar atrás e refazer os planos para conseguir alcançar os objetivos. Sem dúvida alguma, por sua determinação e esforço, Adriano alcançará o objetivo de se tornar dentista.
2. Sempre defendi que é fundamental ter experiência, em algum momento de sua vida, com o contato com o público. Isso torna você mais expansivo e mais sensível para ouvir quem está querendo comprar algo seu. Lá atrás, meus primeiros ensaios na vida profissional foram como vendedor. E, certamente, esse período foi para mim extremamente rico e importante. O Adriano também tem vivenciado essa experiência do contato com o público. Estar no comando de um táxi também é um exercício de construção de habilidades que vão muito além de decorar o mapa da cidade e trocar marchas. Acho que foram as poucas as vezes que um taxista me ofereceu bala ou água. E essa prática de hoje, pode ter certeza, fará a diferença para ele, quando for dentista.
 

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