Quem reclama, sabe fazer melhor

Daniel Fernandes

07 de outubro de 2016 | 10h57


O que Ghandi, a dentista brasileira que criou o escorredor de arroz e o fundador da ONG Médicos Sem Fronteiras têm em comum? Ele pararam de reclamar e foram fazer melhor
Eu reclamo. Tu reclamas. Ele reclama. Nós reclamamos. Vós reclamais. Eles reclamam. Até que eu reclamo porque eles reclamam. E de repente, todos estão reclamando. É o trânsito. São os políticos. É o atendimento ruim que recebeu. O seu chefe. Seus funcionários. O governo. É a violência. Quantas vezes já reclamou hoje, mesmo que mentalmente?
Ainda me lembro de uma mensagem colada na porta da sala de um professor da faculdade em que estudei: Quem reclama, sabe fazer melhor! Depois que li isto, desisti de falar com ele. Nem ia reclamar, mas achei melhor voltar depois com uma melhor solução.
Vários anônimos ou nem tanto, se depararam com mensagem semelhante em portas da vida. Enquanto a maioria reclama da provocação, outros são provocados a fazer melhor.  Alguns reclamam do mundo de todos. Cansado de reclamar da falta de engajamento da Cruz Vermelha em suas ações, o médico francês Bernard Kouchner co-fundou a Médicos Sem Fronteiras em 1971, organização não governamental que buscava alinhar ajuda humanitária, sensibilização mundial e discussão política sobre graves problemas localizados de saúde.
Outros reclamam do nosso mundo. Quantas vezes já reclamou da corrupção no país? O alemão Peter Eigen também. Mas ele parou de reclamar disso a partir de 1993 quando co-fundou a ONG Transparência Internacional que monitora e divulga o nível de corrupção nos países. Graças ao ranking da corrupção mundial da Transparência em 2015, a população da Dinamarca, país menos corrupto do mundo, pode reclamar das razões do país ter tirado nota 91 e não 100. Da mesma forma, por que Finlândia e Suécia tiraram 91 e 89, respectivamente e não 100. E enquanto isso no Brasil… a população começa a não aceitar a nota 38…
Você pode também reclamar dos seus problemas mais mundanos do seu mundo. Que tal reclamar do aspirador de pó? No final da década de 1970, esse era o hobby do inglês James Dyson. Era o barulho ensurdecedor, a oscilação da potência e quem já tirou o saco do aspirador sabe que saco representa bem a situação.
Como quem reclama, sabe fazer melhor, o sujeito pediu demissão e se trancou em uma oficina improvisada em sua casa por cinco anos. Entre 1979 e 1984, criou 5.127 protótipos de um aspirador que não tinha saquinho e era mais silencioso. Até que chegou a um resultado que julgou perfeito. Tentou vender sua criação para os fabricantes de aspiradores de pó, mas descobriu que eles não estavam neste negócio e sim no de sacos. Até quem em 1992 decidiu criar a sua própria empresa. A Dyson Ltd se tornou muito bem sucedida e seu bilionário fundador passou a ser oficialmente reconhecido como Sir James Dyson. Até suas reclamações mais simples são provocações para você fazer melhor.
A dentista brasileira Beatriz Zorowich já estava cansada de encontrar a pia da cozinha entupida com arroz preparado pela sua empregada quando teve a ideia de criar o escorredor de arroz em 1959. Era uma bacia conectada a uma peneira que facilitava a lavagem do arroz. Patenteou o produto e encontrou empresas interessadas em comercializá-lo. Hoje a inovação brasileira é encontrada em diversos países.
Quase 20 anos depois da citação da porta do professor, encontrei mensagem semelhante no trabalho de uma aluna que citava Ghandi: Seja a mudança que quer ver no mundo!
Marcelo Nakagawa é Professor de Empreendedorismo e Inovação do Insper e Diretor de Empreendedorismo da FIAP