Quem quer, vai lá e faz! É uma pena que poucos querem…

Daniel Fernandes

05 de junho de 2017 | 13h00

Já me incomodei com isso, mas agora acho que é uma vantagem. Sou um oriental genérico. Apesar do hardware ser japonês e o software brasileiro, vários coreanos já me abordaram em seu idioma, e chineses em mandarim. Por isso, fiquei feliz e ao mesmo tempo impressionado quando o Carlos me abordou, deu o seu livro e deixou o seu currículo, tudo em chinês.
Isso porque, nesta semana, tive a honra de ser o mestre de cerimônias do Chinnovation 2017, um evento pioneiro co-organizado pelo In Hsieh, fundador da CBIPA (China Brazil Internet Promotion Agency), e Yan Di, country manager da Baidu no Brasil, que foi fundada para criar e fortalecer as relações entre empreendedores e investidores chineses e brasileiros.

Todos os números das startups chinesas são astronômicos. O Baidu, por exemplo, que começou como um site de buscas e atualmente é uma grande plataforma de tecnologias digitais, tem um valor de mercado de US$ 65 bilhões. Se fosse uma empresa brasileira, apenas o Itaú estaria ligeiramente à frente neste quesito. Outra empresa que se apresentou no evento foi a Didi Chuxing. Fundada em 2012, a Didi, que atua no mercado de carros compartilhados, vale US$ 50 bilhões e apenas a Uber a supera em valor de mercado no mundo no ranking das startups que ainda não abriram o capital. Mas a Didi é atualmente a maior dor de cabeça da Uber, já que não conseguiu vencê-la no território chinês, vendendo suas operações para a sua concorrente e abandonando o maior mercado do planeta. A Ant Financial também foi apresentada no Chinnovation. Fundada em 2014, a startup é a fintech, braço financeiro, de outra gigante chinesa, o Alibaba, que passou o Walmart em 2016 como a maior varejista do mundo. A Ant Financial, sozinha, é avaliada em US$ 60 bilhões, quase US$ 7 bilhões a mais do que o valor de mercado do Bradesco. Mas a China não tem apenas startups gigantescas, tem outras que são apenas enormes. A Meitu, startup que tem aplicativos de fotos, também apareceu no evento. Tendo uma base instalada de 1,1 bilhão de aparelhos celulares, deixa os 700 mil usuários do Instagram bem para trás. E mesmo as startups chinesas de pequeno porte são grandes. A Blued foi uma das últimas startups a se apresentar no Chinnovation 2017. Com mais de 30 milhões de usuários, ela é o maior aplicativo voltado para o público gay masculino do mundo.
Por tudo isso, todos os principais investidores do mundo sabem que a China é o melhor mercado do mundo para investir em startups e histórias como o de Dai Wei são cada vez mais comum. Em 2014, ele e seus amigos fizeram um trabalho de faculdade em que pensaram em um aplicativo de compartilhamento de bicicletas. Juntaram as economias e investiram US$ 22 mil para criar a Ofo. Três anos depois, sua startup já havia captado inacreditáveis US$ 580 milhões, tinha mais de três milhões de bicicletas em mais de 50 cidades, incluindo Londres e Singapura, mais de 20 milhões de usuários, atingindo o valor de mercado de US$ 2 bilhões.
E mesmo com tantas histórias assim, o Chinnovation não atraiu muitos interessados. Alguns deram uma passada e foram embora rápido como um amigo investidor. “Vim dar uma olhada, mas vou embora no almoço. Tenho algumas coisas mais importantes para fazer…”, disse.
Mas o Carlos estava lá, sentado na plateia, prestando atenção, anotando tudo. Cumprimentava todos os chineses que via pela frente e encantou o embaixador chinês com seu mandarim fluente. Na hora do almoço, Carlos conseguiu “se convidar” para o almoço fechado para convidados. Por via das dúvidas, veio com sua assistente chinesa e professora de mandarim. Ao término, abordou cada chinês, entregou uma versão em mandarim do seu livro junto com seu currículo onde havia um resumo da sua trajetória, do seu interesse em investir na China e de negócios que tem no Brasil como a Wise-Up, Mundo Verde, Topper, Rainha, Taco Bell… Tudo em chinês, é claro.
Este é Carlos Wizard Martins, fundador do Grupo Multi (Wizard, Yázigi, Skill, Apls, SOS Computadores, Microlins) vendido por R$ 1,9 bilhão para o conglomerado britânico Pearson em 2013.
Disso tudo, uma lição para mim. Muitos dizem que querem ir a eventos para buscar oportunidades de negócios. Mas naquele, eu só vi o Carlos fazendo isso.
Marcelo Nakagawa é um oriental genérico e Professor de Inovação e Empreendedorismo do Insper
Quer fazer, mesmo, negócios da China? Conheça o trabalho da CBIPA (China Brazil Internet Promotion Agency) em www.cbipa.com

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