Quem é bom em gestão e pensa grande não teme multifranqueados

Quem é bom em gestão e pensa grande não teme multifranqueados

Ter franqueado 'umbigo no balcão' não significa, necessariamente, domínio de toda a operação e administração do negócio

Ana Vecchi

15 de julho de 2019 | 13h57

Os multifranqueados e/ou franqueados multimarcas não são novidade no franchising. Há algumas décadas eles existem, mas vêm se tornando mais populares nos últimos anos. Existe uma marca na qual todos que pretendem comprar uma franquia pensam, nem que seja como exemplo de marca a se imaginar e, ela tem multifranqueados há pelo menos mais de 15 anos.

Houve tempo em que muitas franqueadoras não permitiam que um franqueado tivesse mais de cinco unidades, muito menos que tivesse outra marca e menos ainda se fosse uma concorrente. E só poderia abrir depois de um ano de operação da unidade anterior, demonstrando competência para ter mais de uma unidade, com bons resultados e adimplente nos royalties.

Mas, chegou o momento em que os franqueadores entenderam que ter um franqueado gestor, que quer mais, que não aceita se tornar empresário com um pró-labore similar a um salário mediano e que “umbigo no balcão” não significa, necessariamente, dominar a operação e gestão de uma franquia, não é uma ameaça, mas um propulsor para a marca franqueada. Um garoto propaganda de uma empresa franqueadora estruturada, com equipe profissionalizada, conhecedora de seu papel perante a rede e incentivadora do propósito ganha-ganha.

Uma boa gestão do negócio ajuda a não temer os multifranqueados. Foto: Werther Santana/Estadão

A meu ver, não foi porque os franqueados, ao ganharem experiência e acumularem conhecimento na gestão de franquias, que permitiu esta evolução, mas o amadurecimento dos franqueadores na gestão de suas redes, na melhor seleção de franqueados e com marcas mais consolidadas, prontas para crescer Brasil afora.

Por alguns anos, vi multifranqueados desenvolvendo as próprias ferramentas de gestão, sistemas de controles e indicadores, estrutura de gestão de pessoas e capacitação, além de processos. Muito disso não existia nos manuais das franquias, porque o objetivo era operá-las, e não gerir um negócio. Muitos multifranqueados foram os que apresentaram às franqueadoras o que seria a gestão por processos do PDV e buscando soluções para a logística da franqueadora em suprir a rede de produtos de qualidade, nos prazos pré definidos e em condições comerciais viáveis para o negócio.

Como excelentes gestores e operadores têm visão de negócios, propósito, preocupação de longo prazo e memória de como tudo iniciou, isso os estimulou a investir, mais e mais, na marca e na atividade de um franqueador. Optaram em não inventar um novo negócio, com sua própria marca, mas colaborar com a consolidação de marcas poderosas, que oferecem produtos diferenciados, respeitados pelos consumidores. Gerar empregos e assumir todos os riscos de empreender na marca de um terceiro ou de terceiros, serem franqueados de várias marcas, aprender sempre e compartilhar conhecimento.

Parece tudo maravilha, descrevendo assim, mas nem tudo são flores. Nem sempre se sentem reconhecidos ou valorizados pela força que representam, pelos custos menores que podem significar para a franqueadora, pelo real envolvimento que têm com as marcas que representam assim como pelos desafios que enfrentam multiplicados pelo número de unidades que têm.

Merecem descontos (maiores) se têm mais lojas? Devem ser ouvidos com mais atenção, uma vez que estão presentes em vários locais, mais em contato direto com os consumidores? A remuneração envolvendo o e-commerce, por exemplo, chega de forma transparente a todos os envolvidos? Ao ter mais de 20, 50, 100 lojas eles participam dos conselhos de franqueados e da capacitação de franqueados, mais jovens ou com perfil empresarial em desenvolvimento, para que possam se espelhar e aprender mais do que operar um PDV? E os que atuam em diferentes estados e municípios que colaboram com as questões legais e tributárias distintas àqueles que viverão situações similares e a franqueadora não estava, ainda, preparada para isso?

Vou voltar ao assunto multifranqueados em outro post, pois tenho visto a confusão com o desenvolvedor de área, se multifranqueados poderão abrir capital se a franqueadora não quiser fazer por ela, quanto eles possuem de independência para criar suas soluções desde que não fujam da regra geral da marca e vou bater um papo com quem entende dos aspectos legais, tanto nos Estados Unidos como no Brasil, para trazer informações ricas aos que estão com redes de porte pequeno e médio, assim para os (futuros) franqueados e potenciais empreendedores.

* Ana Vecchi é consultora de empresas, CEO na Ana Vecchi Business Consulting, professora universitária e de MBAs, pós-graduada em marketing e com MBA em varejo e franquias. Atua no franchising há 28 anos em inteligência na criação e na expansão de negócios em rede.