Que tempos são estes em que temos que defender o óbvio?

Daniel Fernandes

11 de março de 2016 | 10h14

Todos, de algum modo, sabem que empreender um negócio próprio no Brasil é muito, mas muito arriscado. Cerca de 60% dos novos negócios fecham suas portas nos primeiros cinco anos. E os que sobrevivem, não necessariamente têm sucesso. Em sua quase totalidade, simplesmente sobrevivem. No que diz respeito às startups inovadoras de tecnologia, mais de 90%  das empresas não chegam ao segundo ano de vida.
Mas o que os novos empreendedores aprendem com a parcela majoritária que fracassou? Quase nada. Enquanto o sucesso é onipresente, o fracasso é invisível. O sucesso é popular, mas o fracasso é solitário. O sucesso é o agora e o fracasso é por muito tempo. Mas o que mais chama a atenção é que o sucesso é visto como sabedoria, mas o fracasso é a obviedade.
O último levantamento do SEBRAE sobre as razões das pequenas empresas fecharem as portas, indica a falta de planejamento como a primeira causa mortis.  Ao abrir a empresa, parte dos empreendedores não levantou informações importantes sobre o mercado e mais da metade não realizou o planejamento de itens básicos antes do início das atividades da empresa. Mas não é óbvio que os empreendedores deveriam se dedicar mais ao planejamento prévio?
Por outro lado, o fato de Howard Schultz ter escrito um plano de negócio detalhado ao fundar sua empresa e Alexandre Tadeu da Costa ter previsto em 2003 que teria mil lojas em 2010 (e conseguiu) são exemplos de capacidade de planejamento para muitos… poucos novos empreendedores. Se a Starbucks e CacauShow não forem citadas, quase ninguém reconhece seus empreendedores e tampouco suas lições.
A segunda grande causa dos fracassos das novas empresas está relacionada à capacidade de gestão. Os negócios que fecham antes de completarem cinco anos aperfeiçoam menos seus produtos e serviços, não se atualizam tecnologicamente e não inovam continuamente em processos. Novamente, os novos empreendedores irão se perguntar se não é óbvio aperfeiçoar continuamente produtos e serviços da empresa, ter uma empresa sempre atualizada tecnologicamente e ainda inovar em processos.
Por isso Larry Page e Sergey Brin são celebrados como gênios no desenvolvimento de produtos, serviços e novas tecnologias a frente do Google. Da mesma forma, o Sonho Grande de Jorge Paulo Lemann é cultuado pelo seu processo de construir grandes empresas. Mas poucos conseguem associar como o OKR e o PDCA contribuiu na gestão das empresas destes empreendedores.
E por fim, a terceira maior razão dos fracassos dos empreendedores, segundo o SEBRAE, está associada ao comportamento empreendedor. Empreendedor que não se antecipa aos fatos, em geral, fecha sua empresa em menos de cinco anos. Se não busca intensamente informações ou persegue os objetivos com insistência, tem o mesmo destino trágico. Mais uma vez, o empreendedor de primeira viagem vai achar que faz sentido alguém que não se antecipa aos fatos, não busca informação ou ainda que não é resiliente não conseguir liderar um negócio de sucesso.
Daí, também faz sentido a obsessão quase doentia de Steve Jobs em ser mais rápido e mais surpreendente do que seus concorrentes, Sam Walton em levantar informações detalhadas de concorrentes, clientes e fornecedores fazer sentido e Henry Ford por criar um carros para as massas serem exemplos tão citados. Mas poucos se dedicam a entender o comportamento empreendedor dos fundadores da Apple, Walmart e Ford Motors.
No fim, as causas do fracasso são sempre percebidas como óbvias. E por serem vistas desta forma, são descartadas como oportunidades de aprendizados. Curiosamente, as causas do sucesso também são as mesmas, mas por serem bem executadas, se tornam… óbvias e por esta razão, muitos não conseguem enxergar as lições aprendidas.
Diante de tantas obviedades, a frase do dramaturgo alemão Bertolt Brecht ainda continua óbvia: Que tempos são estes em que temos que defender o óbvio?
Marcelo Nakagawa é Diretor de Empreendedorismo da FIAP e Professor de Empreendedorismo do Insper.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: