Quantas empresas verdadeiramente honestas com seus clientes você conhece?

Daniel Fernandes

21 de outubro de 2016 | 10h26

Jessica Alba criou uma startup de produtos naturais para higiene de bebês
Leio, intrigado, o enorme cartaz de uma lanchonete de uma grande rede de fast food que anuncia: “Hambúrguer, agora, com 100% carne”. Passei todos estes anos comendo o quê então? Penso em optar pelos nuggets de frango, mas daí lembro o quê um amigo, que trabalhou em uma das fornecedoras desta rede, (não) disse sobre os tais bolinhos supostamente de carne de frango. Ele apenas disse que não comia mais nuggets e que tinha saído desta empresa para se juntar a uma outra, muito menor, que comercializava frutas, legumes e verduras orgânicas. Desta conversa, lembro que conversamos dos sucos de frutas que são “néctares”, dos iogurtes que são “produtos lácteos” e dos chocolates granulados que nem cacau tem na fórmula. Mas no país da Lei de Gerson, muitos acreditam que ser honesto é ser ingênuo, e, por isso, boa parte dos consumidores veem vantagens nestes “tipo” sucos, iogurtes e chocolates.
Mas algo tem chamado a atenção no mundo destes ingênuos. Na contramão do mercado, um número crescente de empreendedores vem obtendo sucesso oferendo justamente produtos verdadeiramente honestos que vão além de hambúrgueres caseiros, sucos integrais, iogurtes naturais e chocolates com alto teor de cacau. E por coragem (ou mesmo ingenuidade) chamaram suas empresas de, literalmente, honestas.
Uma delas foi fundada por Seth Goldman em 1998. Durante seu curso de MBA na Universidade de Yale, ele percebeu como ficava indignado com os chás prontos vendidos nos Estados Unidos. Era basicamente água, corante, aromatizante e muito, muito, mas muito açúcar. Por que ninguém vendia chá que fosse verdadeira e honestamente chá, apenas isto e mais nada? Ficava se perguntando. Como não encontrou uma resposta Goldman se juntou a um dos seus professores para criar um negócio que vendesse apenas chás naturais, sem nenhum tipo de adoçante, corante, aromatizante ou conservante. Um produto que fosse orgânico e que respeitasse as regras do comércio justo. Chamou a empresa de Honest Tea, mas teve que trocar o nome depois, pois a sonoridade do nome remetia justamente à líder do mercado de chás.
Os empreendedores então deram a cara a bater e chamaram a empresa (e os produtos) de apenas e tão somente Honest. Atualmente a marca é encontrada em todos os Estados Unidos e ganhou ainda mais fama, pois descobriram que é a bebida favorita do Presidente Barack Obama.
A outra empresa honesta tem uma empreendedora literalmente fantástica. Paz era tudo o que a Jessica Alba queria quando teve sua primeira filha em 2008. Famosa por diversos filmes, Jessica já tinha entrado no imaginário popular como a Mulher Invisível no filme Quarteto Fantástico. Mas ainda quando estava grávida, ela estava preocupada com a toxidade e artificialidade dos produtos que entravam em contato, direta ou indiretamente com os bebês. Preocupada com esta questão, descobriu que outras mães também tinham a mesma preocupação e não encontravam nada desenvolvido para esta fase em que as mães se tornam muito preocupadas com a segurança das suas crias. Depois da chegada da sua filha, Honor, Jessica poderia muito bem ter continuado a viver só da sua fama, mas sua obsessão com a toxidade dos produtos continuava e decidiu criar seu próprio negócio, a Honest & Co. “Gastei meu próprio dinheiro durante três anos, tentando descobrir onde fabricar, que produtos poderiam ser feitos e quais apelos a marca deveria ter. Fiz muitas pesquisas. Todos diziam que eu estava ficando maluca. Não era muito sexy fabricar produtos de limpeza” – diz, explicando como iniciou sua startup em 2011. Três anos depois, sua empresa já esta avaliada em cerca de um US$ 1 bilhão.
Mas as Honests parecem que duram pouco nas mãos dos empreendedores. A empresa de chá foi vendida e de produtos para bebês está sendo negociada agora.
Penso nisso enquanto entro em uma padaria para comer um pão com manteiga na chapa. E quando olho o que o chapeiro está passando no pão, noto que é margarina…
Marcelo Nakagawa é Professor de Empreendedorismo e Inovação do Insper e Diretor de Empreendedorismo da FIAP

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