Quando o empresário vai para o divã

Daniel Fernandes

23 de janeiro de 2013 | 08h28

Juliana fala sobre a solidão de ser pequeno empreendedor

São muitas as decisões que precisam ser tomadas em um dia de trabalho. E se a empresa for pequena, como a minha, sobra para o dono resolver todo e qualquer perrengue. E não estou falando da delícia de decidir entre colocar na vitrine o brigadeiro de pistache ou o de avelã, mas de questões mais azedas e amargas, que exigem uma experiência de vida que às vezes a gente não tem. Tendo ou não, não há muita alternativa no mundo dos negócios além de respirar fundo, fazer o que tem que ser feito e assumir as consequências de cada uma dessas decisões.
Para mim, isso nunca foi lá muito fácil. Eu me sentia tão solitária com as minhas decisões administrativas que nos primeiros anos da Maria Brigadeiro eu dividia minhas preocupações com qualquer boa alma que me desse cinco minutos de atenção, fosse na fila do banco, no ônibus ou no supermercado.
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Minha carência administrativa não parava por aí não: “monotemática” (apelido carinhoso dado pelo meu namorado, que por pouco não pediu as contas), eu só falava de trabalho e transformava qualquer encontro com os amigos numa excruciante reunião de negócios. Chorava minhas pitangas com tanto sofrimento nas sessões de terapia, que meu analista deixou Jung de lado e foi fazer um curso de gestão pela internet para tentar me socorrer.
É preciso dizer que a solidariedade alheia, apesar de bem intencionada,  só me confundia mais as ideias. O dia que um vizinho, ciente do meu desespero, apareceu na loja com um esboço de um contrato de sociedade para eu assinar, eu entendi que envolver emocionalmente as pessoas próximas nos meus problemas podia ser perigoso. Parei de falar. Comia brigadeiro. E, ironicamente, alguém finalmente me ouviu. Conheci, por acaso, um coaching, que, em bom português, seria a solução para a minha ansiedade corporativa crônica.
Conversamos longamente durante 10 sessões e pude chorar e rir, no lugar certo e para a pessoa certa, todos os meus medos e sonhos. Dessas conversas encorajadoras, que associei a uma terapia corporativa, surgiu um plano de ação estratégico (apoiado na experiência dele como gestor de empresas), no qual discutimos formas criativas de fortalecer cada uma das fragilidades da empresa para que ela encontre seu verdadeiro caminho, que nem sempre é o mais óbvio. Apesar do trabalho ter um tempo determinado, geralmente 10 a 12 encontros, me senti tão acolhida não consegui mais parar. Minha família, meu namorado (que virou noivo) e  meus amigos agradecem, em coro com o pessoal do banco, do ônibus e do supermercado.

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