Quando a morte vem de bicicleta e encontra a solidariedade

Daniel Fernandes

30 de outubro de 2014 | 06h00

Rafael Mambretti, da Carbono Zero, escreve toda quinta-feira no Blog do Empreendedor
Tinha tudo para ser uma segunda-feira normal, nosso dia começou como qualquer outro, mapeando o nosso efetivo de ciclistas para o dia. Infelizmente, ainda temos muito problema de faltas, mas isso é assunto para um outro post.
Por volta da 13h30 da tarde o nosso supervisor, o Thiago, me chama e fala: “Acho que o Alemão morreu, atropelado por um ônibus. Vi uma foto e parece ser a bicicleta dele debaixo do ônibus”. Na hora minha mente desligou, por segundos senti que ela se foi do presente partindo para o passado, no tempo em que o Marlon, também conhecido como Alemão, trabalhou e pedalou conosco. Respondi para o Thiago: “Calma, vamos ter certeza primeiro antes de presumir qualquer coisa”, o Thiago foi para o local do acidente na Av. Paulista com a Av. Brigadeiro Luis Antônio, segundos depois eu já estava procurando e encontrando informações na internet e vi a foto da bicicleta debaixo do ônibus, realmente era a bicicleta dele. Nesse link,  você encontra matéria do Estadão sobre o assunto.
Em questão de minutos se confirmou a suspeita do Thiago (e a minha), sim era o nosso ex-colaborador e amigo Alemão, que estava pedalando para uma outra empresa de entregas. A tristeza bateu na hora, ligo para amigos que eram mais próximos do Alemão para tentar entender o ocorrido. Rapidamente também descubro, que foi um erro do alemão, uma decisão tomada no momento errado que lhe custou a vida. Uma conversão, que não precisaria ser feita daquela forma lhe custou a vida. Alemão era um ciclista e entregador experiente, não foi falta de habilidade, foi simplesmente um erro, mas que lhe custou a vida.
Quando começamos um negócio a gente sempre ouve que existem riscos, mas – em alguns casos – nunca queremos que sejam riscos físicos, já não basta os do nosso dia a dia, vamos ter riscos no trabalho também? Cabe a nós empreendedores tentar minimizá-los, mas como fazer?
No caso do nosso amigo Marlon, por mais que ele tivesse participado de treinamentos, ciclista há anos e entregador com mais de 2 anos de experiência. A decisão foi dele em fazer aquela ação naquele momento. O objetivo não é encontrar culpados, mas sim refletir, pois confesso que por alguns segundos me passou pela cabeça de desistir, mesmo não sendo um dos nossos entregadores (o que poderia ter sido), pensei e respondi que poderia não valer a pena continuar. Durou segundos, logo em seguida pensei nas pessoas que dependem da gente e nas pessoas que gostam e fazem suas atividades de maneira prudente e correta. E, mesmo a gente desistindo, outros vão sempre fazer e podem não fazer tão bem. Enfim, precisamos criar formas de minimizar, mas o risco existe para todos nós. Falar que não vai andar mais de bicicleta é ingenuidade, pois morrem mais pessoas de moto, de carro e a pé, do que de bicicletas.
De toda essa tristeza surgiu a coisa boa (sempre surge, né?), a solidariedade. Diversos amigos do Marlon, foram em seu velório e enterro. Quando ele foi encaminhado ao Hospital das Clínicas, tinham ciclistas entregadores de todas as (cinco, se não me engano), empresas de São Paulo.
Ontem, a empresa que o Marlon trabalhava fechou as portas em luto (atitude muito legal por sinal), eles pediram ajuda para atender alguns clientes que não puderam abrir mão de seus serviços naquele dia. Nós nos oferecemos e os ajudamos, sem custo. Isso mesmo, ajudamos nosso concorrente, não cobramos nada por isso, não queremos pegar o cliente deles e tão pouco fizemos isso só por eles, fizemos pelo Marlon e por entender que poderia ter sido conosco e, se fosse, gostaríamos que eles fizessem o mesmo por nós.
Um abraço solidário a família do Marlon, que ele pedale em paz.
Até a próxima,
Rafael

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