Poucos fracassaram mais do que ele. Agora, lidera uma escola de empreendedorismo baseada em fracasso

Antes de fundar o gigante Alibaba e faturar US$ 40 bilhões em 2018, Jack Ma tentou dez vezes uma vaga em Harvard e candidatou-se a mais de 30 vagas de emprego, sem sucesso

Marcelo Nakagawa

15 de fevereiro de 2019 | 11h11

Seus fracassos já são conhecidos. Candidatou-se a mais de 30 vagas de emprego e não foi aceito em nenhuma. Uma lanchonete na sua cidade procurava funcionários. Vinte e quatro pessoas se apresentaram. Vinte e três foram aceitas. Só ele não conseguiu a vaga. Tentou, por quatro anos seguidos, até conseguir passar na faculdade. Depois, aplicou dez vezes para a uma vaga na Harvard Business School e foi rejeitado em todas. Sem muitas opções, tornou-se professor de inglês em seu país natal, a China.

Em 1995, fascinado com a internet, criou uma empresa para fazer websites para pequenos negócios chineses. Após quatro anos, ele lançou uma plataforma para intermediar negócios entre empresas. Vinte anos depois, Jack Ma é a pessoa mais rica da China (20ª no mundo) com uma fortuna pessoal de US$ 37,4 bilhões. A empresa que fundou, o Alibaba, faturou US$ 40 bilhões em 2018, com um lucro de US$ 10 bilhões e valor de mercado de US$ 440 bilhões, posicionando-a com a sétima mais valiosa do mundo, à frente de gigantes tradicionais como Walmart, Toyota ou Unilever.

Jack Ma no Fórum Econômico de Davos, em janeiro deste ano. FOTO: Arnd Wiegmann/Reuters

O que mais poderia fazer um professor elevado à estrela mundial do mundo dos negócios? Criar uma escola. E foi isso que Jack Ma fez em 2015, ao se juntar a outros grandes empreendedores da China e fundar a Hupan University, uma instituição que visa formar a nova geração de grandes empreendedores do país a partir de uma base de aprendizado comum: o fracasso.

Enquanto as escolas de negócio ao redor do mundo se concentram no sucesso, Hupan, nas palavras do próprio Jack Ma, é um “espaço para desconstruir o sucesso e aprender tudo sobre fracassos”.

“Em vez de aprender com o sucesso de outras pessoas, aprenda com seus fracassos. Muitas pessoas que fracassam compartilham razões semelhantes para fracassar, enquanto o sucesso pode ser atribuído a diversos fatores”

E, paradoxalmente, a escola de fracassos tem sido um sucesso, mesmo tendo um dos processos mais concorridos e exigentes do mundo. Em geral, cerca de mil pessoas se candidatam todos os anos para, aproximadamente, 40 vagas. Para se candidatar é preciso liderar um negócio com mais de 30 funcionários, ter receita anual superior a 30 milhões de yuans (US$ 4,4 milhões) e ter, no mínimo, três anos desde a fundação.

Além disso, o interessado precisa apresentar três cartas de recomendação e atestar que seu negócio está sem nenhum tipo de pendência.  O objetivo é formar empreendedores com grande responsabilidade social e com o mais alto padrão moral.

Mas estas condições são apenas pré-requisitos para o processo seletivo, que é feito presencialmente perante uma banca de avaliação (composta por alguns dos principais empreendedores da China) que fará quatro grandes questionamentos ao candidato:

1)      Qual a diferença que você faz nesse mundo?
2)      O que você tem?
3)      O que você quer?

Os quarenta selecionados passam a frequentar a escola quatro dias por semana a cada dois meses, durante três anos até obter todos os créditos. Neste período, seus professores serão os principais empreendedores da China e exigirão o mais alto nível de desempenho de cada aluno que faça por merecer seus esforços. “Nós chegamos onde estamos hoje porque acordamos cedo, trabalhamos até muito tarde, não dormimos muito e tivemos poucos períodos de descanso. Nós lutamos dia e noite e nos recuperamos de desapontamentos e frustrações de novo, de novo e de novo”, diz Jack Ma.

Todos sabem que criar um negócio não é fácil, mas poucos têm a oportunidade de ver e compreender como pode ser humilhante e dolorido o processo de criar, desenvolver e manter um negócio. “Assim, ao aprender com os fracassos dos outros, nós ajudaremos a próxima geração de empreendedores não apenas a crescer, mas a tornar os negócios mais prósperos, longevos e saudáveis”, explica o ex-professor.

Mas em 2018, Jack Ma comunicou ao mercado que deixaria a direção do Alibaba no ano seguinte. “Eu quero retornar à educação, algo que me motiva mais, pois é isso que realmente amo fazer. O mundo é grande e ainda sou jovem. Assim, vou tentar novas coisas porque tenho sonhos que ainda podem ser realizados!”, conta, explicando o motivo da sua desistência da liderança do maior conglomerado chinês.

Desta forma, Jack Ma não só deu respostas para as primeiras três perguntas da sua banca, mas também para o quarto, último e mais importante questionamento: “O que faria você desistir do que você quer?”

* Marcelo Nakagawa é professor de Empreendedorismo e Inovação do Insper e agora colega de profissão do Jack Ma.

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