Potência empreendedora faz periferia criar soluções, não ser só beneficiária

Daniel Fernandes

13 de fevereiro de 2019 | 10h37

Por Maure Pessanha *

Marcelo Rocha, conhecido como DJ Bola, costuma dizer que nas periferias brasileiras existe uma enorme potência de inovação, impacto e superação. Uma força transformadora que vem de pessoas que vivem as dores reais produzidas pela falta de oportunidade e acesso. São cidadãos que sobrevivem e desafiam, cotidianamente, a desigualdade socioeconômica que assola o País.

Bola defende que essa inovação nasce de uma experiência concreta que – ao transformar a realidade de escassez em abundância criativa e de resistência – fortalece o empreendedorismo social na quebrada, alimenta o sonho e a luta em busca de dignidade na base da pirâmide. Concordo plenamente, em especial porque tenho acompanhado bem de perto essa revolução empreendedora na última década.

Presidente-fundador da produtora cultural de impacto A Banca e um dos idealizadores da Aceleradora de Negócios de Impacto da Periferia (Anip), Bola tem apoiado uma nova geração de negócios de impacto social que surge e atua nas periferias de São Paulo. A iniciativa nasceu da crença de que o empreendedorismo com propósito somente será efetivo se a população das periferias for protagonista na criação de empresas que solucionem os problemas sociais e ambientais da quebrada.

E esse é um ponto importantíssimo. A periferia não deve ser apenas cliente, usuária ou beneficiária – antes, deve ser criadora das melhores soluções. Nas diversas periferias do Brasil há empreendedores e empreendedoras com ideias e soluções com alto potencial de inovação.

Marcelo Rocha, conhecido como DJ Bola, empreendedor e acelerador na periferia de SP. FOTO: Acervo Pessoal

Como sabemos, empreender é enfrentar diariamente desafios de toda natureza. Empreender na quebrada, então, torna esses percalços ainda maiores. Por trás de cada história de superação, existem pessoas encarando as mais diversas barreiras em suas trajetórias – seja na solução, no modelo de negócio, no acesso a financiamento etc. Mas, com apoio e suporte adequados e foco em suas reais necessidades, esses negócios podem crescer e impactar positivamente a vida de muitas pessoas.

“A periferia não deve ser apenas cliente, usuária ou beneficiária – antes, deve ser criadora das melhores soluções”

Nas duas primeiras edições de 2018, a Anip apoiou empreendedores da zona sul de São Paulo, dos distritos do Jardim Ângela (M’Boi Mirim), Capela do Socorro e Campo Limpo (Capão Redondo). Nesse contexto, acelerou 10 startups de impacto social. Os empreendedores da Boutique de Krioula, Empreende Aí, Ecoativa, Jovens Hackers, Editora Selo Povo, Periferia em Movimento, Bora Lá, Nutrir-Si, Bio Afetiva e Gastronomia Periférica tiveram acesso a uma rede incrível formada por pessoas de negócios, seres humanos talentosos que juntos trocaram conhecimento, gerando um grande aprendizado para todos os envolvidos.

Vista do Capão Redondo, onde projetos foram acelerados. FOTO: Gabriela Biló/Estadão

Os dois lados da ponte – como Bola gosta de dizer em referência às pontes que separam a cidade de São Paulo – promoveram conexões transformadoras. A ponte se tornou um caminho de troca, porque não é possível transformar a vida das pessoas sem conexão. É o pensamento da abundância de saberes, oportunidades e união de capacidades para gerar negócios lucrativos e que resolvam os problemas não apenas da periferia, mas de toda a cidade.

Em 2019, a zona sul ficou pequena para a iniciativa. Hoje, a Anip está com as inscrições abertas, até 24 de fevereiro, para empreendedores de todos os bairros periféricos do município de São Paulo. Mais gente, mais soluções inovadoras e com impacto social e ambiental positivos. Assim como no empreendedorismo geral, existem uma série de desafios para os empreendedores da quebrada. Mas seguimos aprendendo.

* Maure Pessanha é coempreendedora e diretora-executiva da Artemisia, organização pioneira no fomento e disseminação de negócios de impacto social no Brasil.