Por que o fundador da Victoria’s Secret se suicidou? (Sobre mercenários e missionários)

Daniel Fernandes

11 de abril de 2014 | 07h07

Marcelo Nakagawa é professor de empreendedorismo do Insper
Ele parou seu carro na ponte. Deixou um bilhete pedindo desculpas para seus dois filhos adolescentes. Subiu na grade e se jogou da Golden Gate em São Franscisco. Terminava ali, em 1993, a vida do fundador da Victoria’s Secret.
Dezesseis anos antes, Roy Raymond pensou em comprar uma lingerie para a sua esposa, mas se sentiu muito envergonhado em entrar uma loja “só para mulheres”. Além disso, o que era vendido eram “roupas debaixo” (underwear), muito diferente daquilo que pairava no imaginário masculino.
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Com dinheiro emprestado do banco e de alguns familiares, Roy abriu uma loja que venderia “lingeries” sensuais e não “roupas de baixo”. Para criar um ambiente mais convidativo para os homens, pensou em uma loja inspirada em bordeis vitorianos, com sofás de veludos e iluminação indireta. Desenvolveu linhas de lingeries sensuais, sem apelar para o erótico. Com isso agradava homens em busca de presentes e mulheres que buscavam apimentar suas relações.
Usava a mesma ideia nos anúncios icônicos da Victoria’s Secret, que beirava o limite daquilo que era aceito pela população da Califórnia naquela época.
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A empresa fez sucesso desde o primeiro dia. Terminou o primeiro ano com vendas de US$ 500 mil. Cinco anos depois, as vendas atingiam US$ 4 milhões e o número de loja havia quintuplicado. Mas o apogeu do sucesso de Roy foi atingido quando aceitou vender sua empresa por cerca de US$ 1 milhão. Era jovem, milionário, cercado de mulheres bonitas e invejado pelos seus colegas.
Com o dinheiro comprou uma mansão, colocou os filhos na escola mais cara de San Francisco e pouco tempo divorciou da mulher. Também fundou sua segunda empresa, a My Child’s Destiny, pensando no enorme potencial de lucros do mercado de produtos para crianças. Mas quatro anos depois, a empresa quebrou deixando Roy com muitas dívidas.
Mesmo assim, apostou em outras empresas tentando recuperar o dinheiro que havia ganho com a venda da Victoria’s Secret. Em 1993, Roy estava totalmente falido, sem dinheiro para pagar a escola dos filhos e ainda havia torrado a economia da sua mãe. E o que o tornou ainda mais depressivo foi fato de que a Victoria’s Secret havia ultrapassado as 600 lojas e o faturamento chegava a US$ 1,5 bilhão.
É impossível dizer se a decisão de Roy teria sido outra se ele houvesse conhecido John Doerr, que morava a poucos quilômetros da primeira loja da Victoria’s Secrets no shopping center da cidade de Palo Alto. Doerr tinha feito uma brilhante carreira na área de vendas da Intel e em 1980 tornou-se diretor da Kleiner, Perkins, uma das mais vitoriosas firmas de capital de risco do mundo com investimentos em empresas como Google, Compaq, Netscape, Symantec, Sun Microsystems, Amazon, Macromedia, Twitter, entre outras empresas.
Ao longo dos anos, Doerr desenvolveu uma lógica para identificar empreendedores que lideram negócios com alto potencial de crescimento. Para ele, quando mais o empreendedor busca o dinheiro, mais se afasta dele. Empreendedores mercenários podem até ter sucesso no curto prazo, mas terão problemas no futuro, mesmo que sejam crises de consciência.
Para Doerr, se for investir em empresas, escolha as lideradas por empreendedores missionários, que querem levar sua paixão para o maior número de pessoas. (Clique na tabela para ampliá-la)


A reflexão de John Doerr é importante para que você não se jogue da ponte diante das dificuldades da sua empresa.  O empreendedor mercenário leva uma vida pequena que dá pena. Para o missionário, tudo vale a pena se a vida não é pequena.

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