Por que eu não tive essa ideia antes?

Daniel Fernandes

09 de janeiro de 2013 | 08h43

Sucesso do negócio depende da sua originalidade

Sofro de uma ansiedade curiosa, que deve acometer boa parte dos empreendedores: vivo tendo ideias de negócios que ainda não existem. Não me lembro quando isso começou, mas aos 5 anos eu já tinha inventado o “buffet” de sorvete. Meus pais tiveram sua fase hippie e baniam o açúcar na dispensa com a mesma convicção que pregavam a paz e o amor entre os seres. Nos finais de semana, havia finalmente uma trégua de granola e íamos contentes, meu irmão e eu, a uma sorveteria perto de casa.
Para suprir a longa abstinência de glicose, eu pedia logo o maior sorvete da casa, três bolas com calda quente de chocolate. O problema é que a calda era pouca e sempre acabava muito antes do sorvete, para minha incontida frustração. Eu abria o berreiro e só parava de chorar quando a dona do lugar, vencida pelo cansaço, me deixava cruzar o balcão e me servir à vontade do pote da calda.
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“Por que em sorveteria a gente não pode montar o sorvete do jeito que a gente gosta?”, me perguntava inconformada. Alguns anos depois, alguém se fez a mesma pergunta e abriu, para minha alegria, o primeiro buffet de sorvete do Brasil.
Gosto muito de bolo, daquele bem simples, para tomar com café, mas confesso que, apesar de ser doceira, estou quase sempre atrasada para preparar um. Essa limitação me fez sonhar algumas vezes com uma loja só desses bolos caseiros, saindo quentinhos do forno. Dei a ela nome e tudo. Eis que fiquei bem feliz ao descobrir que esse lugar existe fora da minha imaginação, a poucos quilômetros da minha casa. Lá, são vendidos bolos inteiros, feitos na hora, sem recheio nem cobertura. Formam-se filas na porta.
Em algum outro momento da vida senti falta de iogurtes artesanais. A idéia veio no supermercado, durante um ataque de furia na sessão de lácteos, por nunca encontrar uma versão menos industrializada de uma das coisas que mais gosto na vida. Quando cheguei no caixa tinha um mock-up (modelo) da embalagem na cabeça e já me ocupava mentalmente das licenças sanitárias que julgava serem necessárias. Há um mês li no jornal sobre uma marca nova com esse mesmo conceito. Os iogurtes são feitos com ingredientes selecionados e tem pouquíssimo açúcar. A versão de baunilha, por exemplo, vem com aquelas bolinhas da fava. Deliciosa evolução.
“Por que não tive essa idéia antes?” é a frase que eu mais ouço nos apertados corredores da Maria Brigadeiro. Tenho certeza que muitos tiveram intuitivamente a mesma ideia que eu ao comer em algum aniversário um brigadeiro que não estava lá essas coisas. Atribuo grande parte do sucesso de um negócio à sua originalidade. E penso que a originalidade nasce, quase sempre, de um olhar diferente sobre aquilo que esteve sempre ali, imutável e insuspeito.  Eu me inquieto aos comichões ao pensar que existem milhares de ideias inéditas de negócios só esperando para serem descobertas. E assim passo os meus dias, ocupada, brincando de desvendá-las.
 

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