Por que a intolerância é (cada vez mais) um grande mercado

Daniel Fernandes

09 de dezembro de 2016 | 12h02

Não é barato, mas o Eataly é uma experiência gastronômica incrível. De origem grandiosa em Turim na Itália, se tornou ainda mais famosa quando abriu sua loja Nova York e depois desembarcou lotada em São Paulo em 2015. Quem visita suas lojas fica maravilhado com os alimentos ali comercializados. Queijos, chocolates, risotos, sorvetes, pizzas e outros produtos que estão, literalmente, entre os melhores do mundo. Pipocas cobertas com chocolate belga, doce de leite de Viçosa, massa com o molho (legítimo) quattro formaggi. É um parque de diversões para quem ama a gastronomia como eu. Só que não. Não chega a ser um pesadelo, mas um martírio para quem tem restrição à lactose.
Por isso, meu desânimo deve ter ficado nítido quando pergunto se no risoto al limone vai leite. Leite, não, responde a hostess, mas vai queijo. Mas, completa rapidamente, podemos fazer com só com azeite.  Azeite? Como é no Eataly, confiei na dica. Vem o garçom e eu começo a explicar que tenho restrição à… lactose, ele completa. Diz em seguida que o número de pessoas com restrições alimentares tem crescido muito. Talvez para me consolar, imagino. “Então sem queijo e sem manteiga?” – pergunta. Confirmo, lembrando que também vai manteiga na receita do risoto. Devo ter demonstrado minha desconfiança em um risoto sem queijo ou manteiga. Mas o garçom, gentil, sorri e comenta que iria gostar muito, antes de anotar o pedido e deixar mesa.

Depois que descobri que tenho intolerância à lactose neste ano, comecei a notar que para quase todos os produtos que contêm leite, há empresas lançando versões sem lactose. Mesmo marcas que atuam com larga escala como Nestlé, Vigor ou Danone também estão investindo no mercado.
Pesquisando um pouco mais, descobri que há relatórios que apontam que cerca de 30% dos brasileiros sofrem com este problema. Outras fontes indicam que até 70% das pessoas vão ter este problema algum dia. Isso abre uma enorme oportunidade não só para grandes empresas, mas também empreendedores que têm interesse em produzir e comercializar alimentos para pessoas com alguma restrição alimentar, incluindo outras como glúten ou mesmo sal, açúcar ou gorduras.
Estas oportunidades não se resumem a negócios exclusivos para esses públicos, mas para qualquer outro negócio de alimentação, da loja de sucos da esquina ao restaurante mais sofisticado, da vendedora de brigadeiros ao fabricante de queijos finos, do comerciante de churros à empresa de paletas mexicanas, todos podem incluir versões ou opções para públicos intolerantes que chegam a pagar 10% a 25% a mais por esta regalia.
Enquanto penso nisso, chega o meu risoto al limone à base de azeite. E não é que é muito bom? Tão bom que nem reclamo que a tal salada que constava no cardápio de rúcula com beterraba eram três folhinhas verdes e dois fiapos bordôs compridos. Mas os quase dois copos de suco integral de uva e a sobremesa compensavam os R$ 38 que iria pagar.
Por isso, fui feliz para a sobremesa que vinha na opção do cardápio completo. Descubro que é uma tortinha de chocolate com avelã. “Vai leite?” – pergunto. “Sim…” – responde a moça enquanto sai para atender outro cliente. Penso em desistir. Mas como resistir àquela torta de chocolate com avelãs (inteiras) me olhando? Ainda bem que minha intolerância é pequena…
Marcelo Nakagawa é Professor de Empreendedorismo e Inovação do Insper.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: