Pensando em empreender para mudar o mundo? Deveria conhecer o PIPE da FAPESP.

Daniel Fernandes

26 de fevereiro de 2016 | 07h50

Um milhão e duzentos mil reais (ou até um pouco mais) é o valor que você pode conseguir da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo para transformar sua ideia de inovação em um negócio bem sucedido. E este dinheiro não é empréstimo. É uma subvenção, ou seja, um recurso não reembolsável. Ou de forma mais simples: É dado! Não precisa devolver. Não precisa deixar nada em garantia. E não há nenhuma pegadinha… Tem interesse?
Se sim, deveria conhecer a história da Danielle Brants. Nascida em 1984, se formou em administração de empresas aos 22 anos e foi trabalhar no mercado financeiro. Ficou cerca de seis anos na área trabalhando em banco, empresa de investimentos e consultoria financeira. Mas aquilo ali não a realizava pessoalmente. Trabalhar com dinheiro para simplesmente gerar mais dinheiro era algo que passou a questionar com o tempo. Carreira não era simplesmente ralar pelo salário no final do mês e promoção de vez em quando, ainda por algo tão abstrato quando o setor financeiro. Já aos 27 anos, queria ir para a economia real e se tornou diretora de novos negócios de uma empresa bem real, a General Electric. Buscava novos negócios em energias renováveis e transportes em toda a América Latina. Agora conseguia ver resultados bem tangíveis do seu trabalho, afinal só uma única torre de energia eólica tem quase 100 metros de altura e mais de 800 toneladas. Era tão grande que qualquer pessoa sumia em um parque eólico. Mas a enormidade de tudo também a incomoda. Só no Brasil, sua empresa tinha mais de 10 mil funcionários e passava boa parte do seu trabalho fazendo relatórios, planilhas e apresentação. É preciso ser muito alienado para se sentir realizado só fazendo isso. A vida é bem mais do que só word, powerpoint e excel. Havia um mundo lá fora e isto a incomodava cada vez mais. Aos 30 anos, mesmo tendo um cargo tão alto, pediu demissão para tentar encontrar seu verdadeiro lugar no mundo. Seus amigos se preocupavam e perguntavam para onde ela ia, e a Danielle simplesmente dizia que não ia para lugar algum. Mas ela colocou uma meta para si mesma: Iria conversar com uma pessoa nova todos os dias que estivesse fazendo algo novo.
Entre um bate-papo e outro, conheceu jovens empreendedores que estavam lidando com um dos mais nobres desafios: a educação de crianças e adolescentes. E passou a se questionar por que as crianças do Século XXI estão fazendo em escolas do Século XIX?
Para entender quais são os novos caminhos da educação, procurou a melhor escola do mundo e se inscreveu na Escola de Educação de Harvard. Na volta, fundou a Guten News: inicialmente um jornal eletrônico para crianças. Ela queria incentivar a leitura e ao mesmo tempo incluir a criança no mundo atual. Em vez de ficar evitando fatos “que não eram para crianças”, ela se propunha a mostrar o fato, mas com uma linguagem mais adequada. Escolas que realmente formavam pessoas para o mundo em que vivemos e pais que não queriam criar seus filhos em bolhas fictícias de proteção adoraram a solução e o negócio evoluiu.
Apesar da boa aceitação do seu produto, ela queria mais porque sabia que as crianças aprendiam de formas e ritmos diferentes. Lendo um artigo científico, descobriu um grupo de pesquisadores de Linguística Computacional da USP de São Carlos e se mandou para lá para entender como poderiam trabalhar juntos em um projeto de aprendizagem adaptativa de leitura para crianças. Da reunião nasceu uma amizade com os pesquisadores, da amizade veio a parceria e da parceria surgiu o projeto “Personalização da leitura por meio de ferramentas de classificação automática de complexidade e adaptação textual: leitura em níveis crescentes de dificuldade para alunos do ensino fundamental” que tem recebido apoio financeiro da FAPESP por meio do Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE).
No PIPE é possível solicitar o recurso mesmo que ainda não tenha uma empresa formada. Se já tiver uma, empresas sediadas no Estado de São Paulo com até 250 funcionários podem se candidatar. A ideia do negócio precisa ter estar associado a um problema científico ou tecnológico, mas não é preciso ter mestrado ou doutorado para pedir o apoio. Basta mostrar competência técnica por meio da constatação da realização de projetos similares anteriores. Na primeira fase, que dura até nove meses, é possível solicitar até R$ 200 mil para realizar o que a FAPESP chama de viabilidade técnico-científica, reforçando que sempre haverá riscos no projeto. Neste caso, é preciso desenvolver, pelo menos, um protótipo funcional demonstrando sua eficácia. Após isto ou caso já tenha algo demonstrado, é possível solicitar o recurso para a segunda fase cujo aporte pode chegar a até R$ 1 milhão e durar até 24 meses.
Visite a página do PIPE na FAPESP caso tenha interesse. Procure conhecer os projetos aprovados na sua área de conhecimento. E participe do próximo encontro com a FAPESP que ocorrerá no dia 28 de março para tirar suas dúvidas.
Quanto a Danielle… Bom, ela recebeu o prêmio Inovadores abaixo dos 35 anos do MIT, está na lista dos 10 empreendedores para serem observados em 2016, foi selecionada pela Artemísia Negócios Sociais e vem sendo apoiada Omidyar Network, criada pelo Pierre Omidyar, fundador do eBay.
Banco para ela, agora só de conhecimento. Usinas, só de talentos. 10 mil, só se for de crianças lendo mais e melhor.  E para realmente mudar o mundo, vale o conselho que ela própria recebeu e seguiu: Rume para o futuro que deseja construir e queime a ponte com o seu passado. Não olhe pra trás!
Marcelo Nakagawa é Professor de Empreendedorismo do Insper, Diretor de Empreendedorismo da FIAP e Coordenador Adjunto de Pesquisa para Inovação da FAPESP.

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