Páscoa inspira muitos a investir em franquia de chocolate, mas não é fácil como parece

Páscoa inspira muitos a investir em franquia de chocolate, mas não é fácil como parece

Franquia pode ser sinônimo de sucesso, mas não da noite para o dia; envolve dedicação e investimento combinados a vários outros fatores, conta a especialista em franchising Ana Vecchi

Ana Vecchi

22 de abril de 2019 | 15h19

Impressionantes as filas que vimos, na última semana, quando passamos em frente a lojas da Cacau Show. Principalmente na hora do almoço e em bairros que reúnem endereços corporativos e comerciais, davam gosto de ver. Se bem que, para muitos, dava aflição se imaginar entrando numa “muvuca organizada” daquelas! Dezenas de pessoas nas filas dos caixas, com ovos e outras embalagens de Páscoa, que instigavam lembrar de mais alguém que faltava e as delícias para os pequenos da família.

Nestas horas a gente fala: “Pensa num negócio que deu certo!”. E há os que complementam: “Da noite pro dia!”, “Uma fábrica de fazer dinheiro.” E aí é que mora o perigo de se iludir com a palavra franquia.

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Sempre tem um cunhado esperto que sugere juntar uns trocados polpudos na família e “vamos abrir uma igual a esta”. “A gente trabalha, de verdade mesmo, apenas alguns dias por ano, que movimentam verdadeiras fortunas neste período, mais o dia das crianças, em que a gente compete de frente com os brinquedos, mas podemos fazer promoções que vão acabar com os brinquedos e junta aí o dia das mães, pais, avós. Ah, dia da secretária também! Vamos ficar ricos em seis meses!”

Ele não está de todo errado. Tem visão de negócios e sabe que uma loja dessas é um espaço para presentes, antes mesmo de ser uma chocolateria ou de pertencer ao segmento de alimentação, subsegmento primário docerias e sorveterias. Haverá questionamentos, eu sei, a respeito do que acabo de afirmar, mas quando você vê filas como as desta semana que passou? Só na Páscoa. E a gente dá e ganha ovos de Páscoa, não compra para nós mesmos. É presente.

Fábrica da Cacau Show. FOTO: Márcio Fernandes/Estadão-13/2/2014

Na hora do almoço, o cafezinho chama muita gente para dentro das lojas da marca quando procura-se vender algo mais aos clientes. Algumas pequenas filas ou grupos de pessoas que trabalham, no mesmo lugar, são vistos com frequência. Isso é um ótimo exemplo de um bom ponto ou PDV. Mas achar que vai ficar rico em seis meses já é ilusão demais. E que vai trabalhar pouco, ter qualidade de vida e ganhar dinheiro na sombra com o ar condicionado da loja no máximo é assumir que está a um passo da loucura.

Foi fácil identificar franqueados nas lojas, nos caixas, focados, ligeiros, simpáticos, cobrando e orientando a linha de produção de quem empacota, quem entrega, quem cobra também, quem tem que explicar, sorrindo e com paciência, que “nesta semana não estamos servindo café”.

Te pareceu óbvio que não caberia servir café em uma loja em que nem o coelho da Páscoa caberia? Pois é, tem isso também. Nada é óbvio no varejo. E quem leva dinheiro e quer troco contadinho na era dos bitcoins? Sem falar das senhoras que viram um “reclame” fantástico na televisão e não se conformam que dezenas de pessoas, antes delas, também gostaram daquele produto e acabaram com o estoque, o franqueado não repôs e querem saber o que ele sugeriria àquela hora. Uma cliente achou que era um despautério e olhou para mim, que prontamente acrescentei: egoístas os que vieram comprar antes de nós e levaram às baciadas. Um show à parte! Quase um stand up.

O que quero despertar em nossa conversa de hoje: franquia pode ser sinônimo de sucesso sim, mas não da noite para o dia, para quem quer que seja, sempre e em qualquer lugar. Franqueado ausente não rende, equipe não se compromete e fica batendo cabeça, cliente não tem paciência para esperar, há os que acham problema em tudo, os que lembram – na hora de passar o cartão – que esqueceram a senha ou que precisam levar mais um item e têm que sair da fila, mas querem voltar na mesma posição. Tem mais contas a pagar que a receber, muitas vezes. Um sem fim de desafios/dia!

“Tempo de existência da marca e da rede aliado à cultura do franqueador e propósito para sua rede franqueada fazem muita diferença de uma marca para outra”

Franquia é sinônimo de trabalho, dedicação, aprendizagem, investimento, seleção de muitas pessoas e demissão de algumas. Possivelmente, nem todos os franqueados venderam o mesmo tanto nesta Páscoa. Há muitos fatores que interferem nos resultados de uma rede franqueada, loja a loja, tais como ponto, perfil de franqueado, o que se espera quando investe em uma franquia e de determinado setor. Tempo de existência da marca e da rede aliado à cultura do franqueador e propósito para sua rede franqueada fazem muita diferença de uma marca para outra.

Outras marcas que vendem produtos da mesma categoria e se posicionam para outros perfis de clientes talvez não tiveram as mesmas filas, mas um ticket médio maior. Há as que realizam vendas corporativas para executivos, eventos (cafés da manhã, brunch) e cestas, então não vimos as filas. Porém, faturaram muito bem com o público que paga para não enfrentar uma fila daquelas. E ser chocólatra nem de perto é uma definição de bom perfil para ter uma loja que vende chocolate.

Parabéns pelas vendas da Páscoa, que pareceu, se não mais otimista ou esperançosa, mais acessível aos mais variados bolsos e carteiras. Não faltaram opções de ovos e atrativos, as lojas Americanas também souberam atrair seu público e as filas foram visíveis. E tomara que todos tenham lembrado do porquê comemoramos a Páscoa e tenhamos tirado dela, o melhor de nossos corações.

Em tempo, não presto consultoria à Cacau Show nem estou prospectando…

* Ana Vecchi é consultora de empresas, CEO na Ana Vecchi Business Consulting, professora universitária e de MBAs, pós-graduada em marketing e com MBA em varejo e franquias. Atua no franchising há 28 anos em inteligência na criação e expansão de negócios em rede.