Para sonhar grande, é preciso parar de agir pequeno

Daniel Fernandes

22 de janeiro de 2016 | 06h17

Jim Collins, o maior pensador de negócios atualmente é fã deles. Warren Buffett, o investidor mais idolatrado do mundo é mais que fã, é sócio deles. É fato que o legado de Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira sobre como construir grandes empresas será muito maior do que os seus negócios.
O sucesso deste legado é refletido nas vendas do livro best-seller Sonho Grande (Editora Sextante, 2013), que vendeu mais de 300 mil unidades apenas da sua versão em português.

Os ensinamentos do trio agora viraram lugares comuns em artigos, treinamentos de autoajuda corporativa e mantras para executivos e empreendedores.
Por terem sido tão vitoriosos, suas mensagens fazem muito sentido… para eles. Para os demais, que ficam inspirados pela beleza da sabedoria implícita, pode ser apenas sonho grande ou apenas uma realidade pequena.
Diz Jorge Paulo: “Comecei a usar a regra de tentar reduzir todas as disciplinas a cinco pontos essenciais. Eram as coisas básicas que eu tinha de saber bem. Hoje em dia é algo que usamos em nossas empresas”. Pensa o que sonha grande: “Uau! É isso!” Passado um tempo, pergunte quais são seus cinco pontos essenciais e obterá um “hum?” como resposta.
E continua a refletir as sábias palavras: “…descobrimos cedo que, numa sociedade, é bom ter pessoas diferentes. Não pode ser todo mundo igual. Pessoas diferentes têm habilidades diferentes.” Balançando a cabeça, mesmo que mentalmente, o que sonha grande concorda: “Isso, isso, isso!”. Mas depois, só contrata pessoas que pensam como ele(a) já que como são inteligentes as pessoas que pensam como nós. Mais um tempo, a empresa só tem clones do chefe.

Os mais entendidos sabem que Lemann sempre foi um tenista muito competitivo, mas poucos sabem que, além disso, o tênis o ensinou outras lições marcantes. Uma foi o jeito simples, direto e espartano, marcas do seu tipo de gestão. “Sempre tentamos administrar tudo com simplicidade, objetividade. Nada é muito enrolado nas nossas coisas.” – diz. “Tive um professor chileno que me influenciou muito na maneira com que eu vejo as coisas. Ele tinha dois ditados. O primeiro era ‘mucha ropa, poco juego’. Quer dizer, o cara que aparecia todo bem-vestido e com muitas raquetes, em geral, não jogava nada. O segundo: não jogue para a plateia, mas para ganhar o jogo. Até hoje, muito elogio me deixa preocupado.” Mas muitos dos que sonham grande ainda continuam sendo complexos, indiretos e, principalmente, caros para suas organizações. Para estes, a aparência ainda é mais importante do que a essência. E elogios são sempre bem aceitos, claro.
A base da receita do sucesso de Jorge Paulo, Beto e Marcel é sintetizada por algo que se tornou o principal referencial para todos que querem construir grandes negócios: “Estamos sempre tentando escolher gente melhor do que nós” ou “Basicamente queremos encontrar sempre pessoas melhores do que nós” – explicou Lemann em diversas ocasiões. Mas muitos dos que sonham grande, curiosamente, sempre têm as melhores ideias da equipe…
E não há algo mais verdadeiro para os que sonham grande do que a principal atitude de Lemann: “Delego muito: nunca fiz questão de ser o cara que fazia tudo. Gastei mais tempo escolhendo e formando gente muito boa, para eventualmente dar oportunidades a eles e ter mais tempo para mim”. Muitos sonhadores concordam com este ensinamento… desde que tenham a palavra final.
Daí, mais do que por essas razões, mas por essas ações, é preciso refletir se o que é grande mesmo é o sonho ou é o ego.
Marcelo Nakagawa é professor de empreendedorismo e inovação do Insper e diretor de Empreendedorismo da FIAP