Para quem optou pela excelência no Brasil: Obrigado Cosac Naify

Daniel Fernandes

04 de dezembro de 2015 | 07h07

Para os que não apenas gostam de ler, mas que também gostam de livros, o anúncio do fim das operações da editora brasileira Cosac Naify nesta semana trouxe uma mistura de tristeza, vazio e agradecimento.

Para os que conhecem Barroco de Lírios, o primeiro livro da editora, lançado em 1997, sabem que não é possível reproduzir os dez tipos de papéis utilizados artisticamente na publicação em um tablet, mesmo com todos os seus recursos.  Em Na noite escura, o designer italiano Bruno Munari convida as crianças para uma aventura em uma noite escura. Uma misteriosa luz brilhante atravessa as páginas. Na parte inicial, toda impressa em papel preto, mostra a escuridão da noite e suas surpresas escondidas. Em seguida, usa-se papel translúcido, mostrando a neblina da manhã e o livro termina em uma intrigante gruta, toda em papel pardo. Mesmo tendo sido elaborado em 1956, o livro ainda bate em muito aplicativo pois aguça o que o que a criança tem de mais belo: sua imaginação.
Daí, a tristeza fica por conta de que todos que conhecem a editora sabem da sua opção e obsessão pela excelência e por isso, todos passam a ter o seu livro preferido. E a sensação de que isto (e outras boas surpresas) pode não existir no futuro cria um vazio.
Mas entendo a opção do empreendedor Charles Cosac em descontinuar as operações. Por mais que tenha o compromisso com a excelência em toda a experiência do leitor com suas publicações, é, muitas vezes, desanimador observar o tipo de obra que vira best-seller no Brasil. Não raro, optar pela excelência não dá lucros aqui. E sem lucros, não há negócios.
Por isso, neste momento, só resta agradecer à Cosac Naify pela publicação de tantos livros de qualidade. Pelo momento que vivo, tenho uma especial atenção com os livros infantis. E o número de opções da editora deixa qualquer pai admirado. A Árvore Generosa muda a relação das crianças com a natureza. O Não é uma Caixa fala das possíveis brincadeiras com uma caixa de papelão e principalmente, sobre a importância de pensarmos, literalmente, fora da caixa.
Em O Pato, A Morte e a Tulipa, refletimos sobre a beleza da vida e também da morte. De tempos em tempos precisamos lidar com isto, não? E quem não tem um filho que desobedece, pelo menos, de vez em quando? Onde Vivem os Monstros discute a liberdade que as crianças querem ter e a autoridade dos pais, os “chefes” da casa, levando a todos a refletir sobre o impacto das suas decisões. É um livro para crianças de todas as idades que reclamam dos seus “chefes”.
Mas o livro preferido da Helen, minha filha mais velha, de seis anos, fala de uma menina que nasceu muito pobre e anos depois se tornou uma rainha. Cinderela? Bela? Rapunzel? Não… O livro fala de Gabrielle, filha de mãe lavadeira e pai vendedor de rua. Aos doze anos, perdeu sua mãe e o pai, sem condições de criá-la, colocou-a em um orfanato. Aos 18 anos, mudou-se para um pensionato de moças onde aprendeu a costurar e conheceu a alta sociedade francesa. Por discordar sobre como as mulheres eram tratadas e, principalmente, como se vestiam na época, Gabrielle “Coco” Chanel passou a criar roupas que ofereciam mais liberdade e incentivava o protagonismo feminino.
O livro Diferente como Chanel é leve como deveria ser um livro infantil e muito bem ilustrado pela própria autora, Elizabeth Matthews, mas também trata de alguém que ousou ser diferente, empreendedora, inovadora e protagonista da sua vida. Tudo isso em um livro de capa dura, papel couché fosco de 170 gramas que faz o livro pesar quase meio quilo e durar por toda a vida. É diferente como Chanel mas com a mesma alta qualidade como a Cosac Naify.
Marcelo Nakagawa é professor de Empreendedorismo e Inovação do Insper e Diretor de Empreendedorismo da FIAP

Tudo o que sabemos sobre:

Estadão PME;Blog do Empreendedor

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: