Para onde vão os empreendedores depois que morrem?

Daniel Fernandes

14 de março de 2014 | 07h11

Marcelo Nakagawa escreve toda sexta-feira
Tínhamos marcado um café! Desses sem data marcada. Há muito tempo não o via, mas sempre fui muito grato pela chance que me deu para ser professor de empreendedorismo. Na época, mesmo tendo uma década de experiência analisando empresas e ajudando empreendedores como investidor, eu, de longe era o mais novo da classe.
Ele já era um executivo consagrado, presidente de várias empresas, reconhecido no setor como um dos melhores e era um dos coordenadores do curso. Depois, fiquei feliz quando colocou tudo o que sabia em um livro sobre como colaboradores de uma empresa podem e devem agir como empreendedores. Era o que fazia na prática. Também fiquei feliz quando vi meu nome nos agradecimentos no livro.
Por tudo isto, poderíamos marcar um café sem data. Mas não agora pois ele faleceu no último domingo. Ao me despedir, fiquei pensando no que levamos da vida? A lembrança de nossa família, um item de estimação, a paixão pelo nosso time? E caía nas perguntas mais elementares: Por que vivemos? Por que acordei hoje mesmo?
“Mas para quê se preocupar?” – dizia Walt Disney. “Se você fizer o melhor que puder, preocupar-se não fará disto algo ainda melhor”.  E o próprio Disney faleceu tentando fazer o seu melhor, mas mesmo assim, morreu preocupado. No final de 1965, já muito enfraquecido pela doença e internado, ele trabalhava naquilo que achava que seria o seu melhor legado: o parque Experimental Prototype of Community of Tomorrow, mais conhecido pela sua sigla EPCOT.
Seria uma celebração da ciência, da tecnologia e da paz entre as nações. “Imagine ser lembrado em todo o mundo só pela invenção de um rato!” – disse, minimizando o símbolo de tudo aquilo que havia construído. Por esta razão, ele implorava para que continuassem EPCOT após sua morte.
Na manhã de 15 de dezembro daquele ano, a família de Disney estava toda reunida a sua volta. Sua filha mais nova, Sharon, colocou as mãos sobre as do pai e sussurrou: “Agora papai você não sentirá mais dor…”. Mas Disney ainda se mostrou em vida minutos depois quando a enfermeira que havia cuidado dele disse aos familiares: “Só que queria que soubessem como este pobre homem estava temeroso que o seu projeto não fosse terminado.”
Lembro disso todas as vezes que paro, em silêncio, para admirar o enorme globo prateado na entrada de EPCOT. É minha forma de agradecer e reverenciar alguém que nunca morreu.
Mas muitos ainda são assombrados pela sua própria morte. Não pela partida mas por causa daquilo que deixamos de fazer.
Bronnie Ware, enfermeira australiana, cuidou de muitos pacientes terminais e escreveu o livro Antes de Partir (Ed. Jardim dos Livros, 2012) em que conta quais são os cinco principais arrependimentos que temos ao final da nossa vida.
1.Gostaria de ter tido a coragem de ter vivido verdadeiramente a minha vida e não aquela que os outros esperavam de mim! Muitas pessoas, ao final da vida, se arrependem de coisas que fizeram ou não só para atender aquilo que era esperado delas.  Steve Jobs costumava dizer que “A vida é tão curta. Não a perca tempo tentando viver a vida de outra pessoa”. Por isto, uma das frases da Luiza Trajano, empreendedora do Magazine Luiza, que sempre vai e volta na minha mente é: Você quer ser feliz ou ter razão?
2. Gostaria de não ter trabalhado tanto! Ela explica que este arrependimento é que quase 100% dos homens que atendeu. Arrependem-se de não ter ficado tanto com a família ou de fazer outras coisas que o(a) fariam mais feliz.  Aqui, vale a reflexão proposta pelo Comandante Rolim, empreendedor da TAM: Só trabalha duro no sentido da palavra quem não gosta do que faz. Por isto, eu, graças à Deus, nunca precisei trabalhar!
3.Gostaria de tido a coragem de expressar mais os meus sentimentos! Ware explica que muitas pessoas não falam o que sentem para não perder a amizade, mas ficam sentimentos que vão corroendo-as por dentro. Também fica o peso delas não terem sido verdadeiras.
4.Gostaria de ter estado mais em contato com meus amigos! O café sem data marcada com meu amigo já ilustra este ressentimento. Estamos sempre ocupados e ficamos com peso na consciência quando não temos nada para fazer. Boa parte de viver bem a vida é feita entre amigos. Sabemos disso, mas sempre achamos que amanhã vai dar tempo.
5.Gostaria de ter me deixado ser mais feliz! A autora explica que este ressentimento é o mais comum. Só no final da vida, as pessoas se dão conta que a felicidade é uma questão de escolha. Ficam ressentidos pois ficaram presas a velhos padrões e hábitos, ficaram em suas zonas de conforto e tiveram medo da mudança. Quando estão na curva final de suas vidas se dão conta de que pouco importa o que as pessoas pensam de você. O que importa é a vida que viveu. “Quase tudo, todas as expectativas externas, todo o orgulho, todos os medos de passar vergonha ou falhar, todas estas coisas vão embora quando a morte é encarada de frente, sobrando apenas aquilo que é verdadeiramente importante”.  – Dizia Steve Jobs.
Talvez nenhum outro empreendedor tenha refletido tanto sobre a morte quanto Steve Jobs e por esta razão a reflexão que ele propõe é uma das mais poderosas:
“Quando tinha 17 anos, li uma mensagem que dizia mais ou menos o seguinte: Se você viver cada dia como se fosse o último, algum dia desses você acertará. Isto me impressionou e desde então, nos últimos 33 anos, eu me olho no espelho todas as manhãs e me pergunto: Se hoje fosse o meu último dia de vida, eu gostaria de ter feito as coisas que farei hoje? Se a resposta fosse não por muitos dias seguidos, eu sabia que era necessário mudar alguma coisa.”
Empreendedores assim nunca morrerão. Continuarão existindo por meio das crias e criações.
Para os demais, o mais importante é decidir se você será lembrado como um homem ou como um rato.
Por tudo isto agradeço ao amigo que abriu o mundo do empreendedorismo para mim e ainda vamos tomar o café combinado em algum lugar! Eba!!!

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